Laureado com o Prix du 75ème, ampliando o rol de vitórias dos irmãos Dardenne em Cannes, “Tori et Lokita” foi gestado durante a pandemia, nas brechas da covid-19 na Bélgica, movido pela perceção de que os imigrantes de nações mais empobrecidas economicamente viveram um calvário social ainda mais violento durante o período de confinamento, pela escassez.

Semanas antes de o coronavírus gerar uma onda de terror e confinamento, Jean-Pierre e Luc falaram ao C7nema, durante o Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français e explicaram o conceito por trás de uma dramaturgia que, em nada, inova a sua obra, mas reitera uma dimensão sociológica e esmerilha a precisão narrativa da dupla: “Quando dizem que nós produzimos ‘contos morais’, penso que esse é um rótulo novo para algo secular, que é a preocupação com a condição humana e com as situações que façam da submissão, seja económica ou religiosa, um cabresto para o respeito ao próximo. A preocupação que o meu irmão e eu temos ao contar histórias é não estilizar, para fugir do risco da adjetivação. Cada filme que fazemos é apenas uma forma de prestar atenção ao indivíduo, com as suas singularidades”, disse Jean-Pierre.

Esse prestar atenção, no caso de “Tori et Lokita” tem como resultado um filme áspero, no qual a desesperança supera a solidariedade. Leveza nunca fez parte da homilia da dupla, embora o recente “Le Jeune Ahmed“, que rendeu-lhes Prémio de Melhor Realização em Cannes, em 2019 – e “Le Gamin au Vélo” – pelo qual conquistaram o Grande Prémio do Júri da Croisette, há 11 anos – eram mais arejados, abertos a conciliações, pautados por uma certa esperança no dom autorregenaritivo da infância e da juventude. E, de modo geral, os jovens são o objeto central de Jean-Pierre e Luc, num empenho em entender como as novas gerações ressignificam os dilemas da contemporaneidade.

Mas o seu novo conto moral- acerca do modo como o Velho Mundo lida com estrangeiros numa condição de imigração – não dá licença alguma a saídas otimistas. Não por acaso, na sua projeção na competição pela Palma de Ouro de 2022, o filme foi indigesto para a plateia, mesmo tendo recebido uma ovação de nove minutos. É narrativa que deprime. Mas é uma narrativa de precisão cirúrgica, sem perder um plano para o acaso, para a inércia dramatúrgica, tensa em seu compacto espaço de tela – 1h28, que passam redondos. A montagem de Marie-Hélène Dozo e Valène Leroy galvaniza a pressão de dois expatriados em risco contínuo, de vida e de deportação. Da mesma forma como galvaniza sensações de situações corriqueiras como é o degustar de uma focaccia.

Vencedores de duas Palmas, conquistadas em 1999 (pelo monumental “Rosetta“) e 2005 (por L’Enfant“), os artesões autorais da Bélgica retomam, com este novo trabalho, os trilhos do desterro que marcavam os seus primeiros filmes (La Promesse, por exemplo). O seu novo exercício autoral é uma radiografia da desumanidade que circunda os estrangeiros de África na Europa, sob o fantasma do racismo e da exclusão. É um filme amaríssimo sobre um casal de irmãos – a adolescente Lokita, encarnada com uma entrega vulcânica por Joely Mbundu, e um miúdo, vivido por Pablo Schils – que se aproximam de contraventores para conseguir os meios (leia-se € 11 mil) para custear os seus documentos e ficarem em terras belgas. De certa forma, lembra-nos a corrida contra o relógio de Marion Cotillard em “Deux Jours, Une Nuit” (2014), um dos exercícios autorais mais populares do duo. Cirúrgico, o filme segue os périplos de ambos os protagonistas, em rotas transversais ou paralelas, na estrada do determinismo social. É um bom Dardenne, mas não chega a ser um Dardenne de transcendência. Tem gosto de narrativa requentada. Daquelas refeições que vão ao micro-ondas.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
tori-et-lokita-um-dardenne-de-micro-ondasUm filme áspero, no qual a desesperança supera a solidariedade