Prestes a ser relançado numa cópia remasterizada celebrativa dos seus 25 anos, “Pi” – que faz parte do catalogo da MUBI, no Brasil – comprova o quanto o seu realizador, Darren Aronofsky, é bom com números, capaz de extrair deles dramaturgia… e sucesso. É o que passa com a sua carreira diante da consagração do lúdico (mas, devastador) “The Whale” (“A Baleia”), que concorre aos Oscars em três frentes. A sua participação na festa anual da Academia envolve as láureas de Melhor Maquilhagem e Penteado (feitos por Judy Chin, Anne Marie Bradley e Adrien Morot), Atriz SecundáRIA (Hong Chau) e Ator, na qual conta com forte favoritismo de Brendan Fraser. Na aritmética do mercado exibidor, A sua arrecadação em dólares – hoje estimada em 16 milhõ de dólares- faz da sua bilheteira um indício de sucesso para o cinema independente americano. E esse indício é essencial à indústria num momento em que tanto os grandes estúdios quanto o circuito de pequenas produtoras lutam para driblar a ditadura dos streamings e encher salas com os espectadores que desapareceram com pandemia. Mas todos os contratempos inerentes à covid-19, às mudanças na receção das narrativas e às crises no bolso de todo o planisfério cinéfilo, não tiram de Aronofsky a certeza de que o modo indie de ser – e de filmar – ainda é válido. É o que o cineasta nova-iorquino de 53 anos explica ao C7nema na entrevista a seguir. Referências à trajetória de Akira Kurosawa, numa alusão à solidão dos samurais, em seu código de honra, pontuam a conversa, na qual Darren fala da escolha de Fraser para viver Charlie, um professor de Literatura que, às portas da morte, devido à sua obesidade mórbida, tenta reatar relações com a filha.

As suas obras têm singularidades, seja na forma, seja na escolha temática, o que torna difícil analogias cinéfilas com outros filmes. Mas existe algo dos samurais de Akira Kurosawa nas suas heroínas e heróis, não apenas na retidão deles, em suas causas, como em certos códigos que eles escolhem seguir. É o que se vê com Charlie, o professor encarnado por Fraser. Mas os seus samurais têm sempre que encarar as flechas dos excessos. São os excessos de cálculos (“Pi”), de drogas (“Requiem for a Dream”), de vaidade (“The Wrestler”, Leão de Ouro de 2008), e até do perfeccionismo (“Black Swan”) Esse “excesso autoral é consciente?
Obcecado por Kurosawa como sou, agradeço a comparação, e entendo de onde vem, por reconhecer a sua influência em mim. Mas eu sou um realizador de baixo orçamento nos Estados Unidos. Um realizador que escolheu falar sobre os demónios internos das suas personagens, pois elas me fascinam. Existe uma metáfora de “Moby Dick” na história de Charlie para expor o oceano que a vida dele virou. É isso o que me atrai: a profundidade desse mar psicológico, desse mar de sonhos, desse mar de medos. Demorei a encontrar o meu Charlie, mas ao esbarrar com o Brendan sabia que ele estava ali.
O quanto das águas que transbordam esse mar de Charlie são importadas do teatro, da peça homónima de Samuel D. Hunter de onde nasceu “The Whale”?
O Sam ofereceu-me camadas de conexão essencial com o seu protagonista por meio da sua poesia em palavras que forjam metáforas sólidas. A sonoridade dessas palavras ecoa na forma como o design de som da longa-metragem foi planeado. É no som que me conecto com a plateia em seu aspeto mais sensorial.
Qual é o retrato de família que Charlie e a sua filha formam?
Todas as famílias se rendem a determinados clichês. É uma dinâmica que não muda. O que muda, na ficção, é a forma como a gente desenha cada personagem dessas famílias com mais tessitura existencial, para que eles sejam bem delineadas. O desafio de cineasta, a cada filme, é criar um mundo que espelhe as minhas inquietações.

Há quatro anos, um filme brasileiro do qual você participou, “Pacificado”, ganhou a Concha de Ouro do Festival de San Sebastián, consagrando o realizador Paxton Winters. Consagrou também a sua assinatura como produtora, paralela à sua estética como cineasta. O que Paxton trouxe de mais preciso para você?
Pax é, acima de tudo, um grande amigo, com quem eu tenho trabalhado em muitas ideias. Ele é um artista que olha o mundo, globalmente, com amplitude.
Estabelecido hoje como marca de produção, vide o êxito de “Pacificado”, você começou a sua trajetória nas longas-metragens com “Pi”, em 1998, num momento em que se falava de uma revolução indie no cinema americano. Nos anos 1990, vimos o alvorecer de Paul Thomas Anderson, Lisa Cholodenko, Wes Anderson, você, Tarantino e outras vozes autorais de peso. O sentido de “independência” que havia ali ainda existe?
A arte filmar mudou muito, dos anos 1990 para cá, sobretudo pela onipresença do digital na arte. Mas a oportunidade para ser indie ainda existe. Talvez exista ainda mais agora, pois há novas formas de exibir. A transformação mais radical de hoje, em relação à época de “Pi”, é o facto de que esse excesso de veios de visibilidade dificulta a vida de quem quer se manter no underground.
Como você vê a volta de “Pi” e “Requiem For a Dream” na MUBI?
No dia 14 de março, vou relançar “Pi” nos cinemas, na sua cópia remasterizada. Eu reluto para rever os meus filmes antigos. Revi “Requiem…” quando sua cópia em Blu-Ray saiu, e me lembrei da sensação que tive em cada cena que filmei. Gostei de voltar a elas. No caso de “Pi”, sinto que as ideias que estavam por trás daquela trama ainda se sustentam.

