Estreado na Semana da Crítica do Festival de Cannes, premiado recentemente em Valladolid e selecionado pela Academia Portuguesa de Cinema para representar Portugal na corrida ao Oscar de Melhor Filme Internacional, “Alma Viva” chega aos cinemas portugueses esta semana.
Um dos objetos cinematográficos mais peculiares e interessantes do ano, “Alma Viva” marca a estreia na realização de longas-metragens de ficção da luso-francesa Cristèle Alves Meira, a qual já tinha passado por Cannes em 2019 com “Invisível Herói”, e lançado antes disso as curtas “Sol Branco” e “Campo de Víboras“, que foram exibidas em diversos festivais nacionais. “O FEST em Espinho foi o meu primeiro festival em Portugal, na altura com um filme angolano, o “Born in Luanda””, explicou-nos a jovem cineasta em Cannes, numa conversa onde o seu “Alma Viva”, acabado de estrear, centrava as atenções.
Ficção com alguns elementos autobiográficos, em “Alma Viva” seguimos a pequena Salomé, que regressa à aldeia natal da sua família, nas montanhas de Trás-os-Montes, para passar as férias. O ambiente de festa e descontração é interrompido quando a avó de Salomé morre, e ela começa a ser assombrada pelo espírito daquela que na aldeia era vista como uma bruxa.
Na primeira apresentação ao público na Semana da Crítica, disse que o “Alma Viva” nasceu no seu ventre. Como nasceu este filme?
Fiz este filme a partir de um sentimento autobiográfico, que me remetia à morte da minha avó. Eu já era adulta, tinha vinte e poucos anos, e assisti a discussões e lutas familiares em torno dela, que na altura ainda não tinha sido enterrada. A brutalidade das relações e o sentimento de injustiça invadiu-me e tinha de falar sobre isso. Além do mais, tinha também a vontade de filmar em Trás-os-Montes e na aldeia da minha avó. O ponto de partida foi mesmo a vontade de regressar às minhas origens e contar uma história mais íntima. Porém, no registo autobiográfico só temos mesmo aquela cena central, em que a criança está debaixo do caixão. Aquela sou eu. Tudo o resto é ficção.
Escrevi o filme ao longo de muitos anos, pois não fiz escola de cinema. Venho do teatro e tudo isto foi um processo muito demorado. Estava ali também a aprender o que é cinema e o que eu queria; qual era a minha gramática. À medida que ia escrevendo fui realizando curtas-metragens. Fiz duas curtas na mesma aldeia – uma de verão, o “Sol Branco”, e uma de inverno, o “Campo de Víboras” – já a preparar o terreno, as pessoas, os décors e as minhas obsessões para fazer o “Alma Viva”.
Essa família de cinema que fui criando ao longo dos anos, onde se inclui o Duarte (Pina) com quem fiz a curta “Invisível Herói”, levou ao “Alma Viva”. O financiamento foi também complicado, mas era sobretudo português. Depois veio a França e a Bélgica e foi uma grande ajuda. Quando chegou o momento de filmar, apareceu o Covid-19 e tivemos de esperar mais um ano. Filmamos então em 2021 e estávamos todos super contentes por finalmente o fazer. Por exemplo, ao Rui Poças, quando fiz em 2016 o “Campo de Víboras”, disse-lhe logo que estava a escrever uma longa-metragem e que queria trabalhar com ele.
O filme joga com alguns códigos que frequentemente vemos no cinema de horror. Como foi o processo de ir buscar esses códigos para o seu filme?
Desde o princípio sabia que ia ter elementos dos filmes de género. Esse não é propriamente o meu cinema, e se virem as minhas curtas vão encontrar um cinema entre o documentário e a ficção. Aqui havia uma necessidade de não cair totalmente nas ferramentas de género. O fantástico está presente, pois temos uma jovem que tem de se confrontar com os espíritos e lidar com as crenças daquela comunidade, mas não queria que a maquinaria de efeitos visuais tomasse conta das coisas. Queríamos um mundo que vagueasse entre o realismo e a magia. Procuramos, assim, uma espécie de naturalismo, simultaneamente antropológico, onde tudo era muito trabalhado, como a palete de cores, a forma pitoresca , etc. Não estávamos num documentário e procuramos criar atmosferas sobrenaturais com simbolismos um pouco por todo o lado. Queria dar uma dimensão mágica sem estar explicitamente num filme de género. Não desejava fazer um filme americano sobre bruxas. Sim, é um filme de bruxas e temos coisas em comum, mas o “Alma Viva” não é um filme de género.

Algumas pessoas creem que a imagem que passa do país (a partir da região de Trás-os-Montes) para fora é um pouco retrógrada. Tem medo que passe essa imagem?
Estas histórias do passado surgem em todo o tipo de filmes, por isso ver as coisas assim era compreender mal o filme. Existe uma frase, “os vivos fecham os olhos dos mortos; os mortos abrem os olhos aos vivos”, que para mim significa que são as nossas histórias mais antigas, as que formam a memória arcaica das nossas tradições, que fazem a nossa força. Uma espécie de memória original do que era Portugal.
Estou aqui em Cannes há três dias e pela reação das pessoas estamos perante um filme universal. Muita gente falou-me das lembranças das avós, em Marrocos, no México e em França. É um filme de ligação aos nossos ancestrais. Um filme moderno, de 2022, que procura manter uma ligação com o passado. É um filme sobre herança e transmissão e isso para mim é uma força, não o contrário.
Além disso, é um filme de aventuras, um western. Numa pequena aldeia, no meio das montanhas, queria inserir aventuras, duelos, inspirados em guerras de vizinhança, litígios antigos. As pessoas de Trás-os-Montes têm uma forma de ser muito própria. Eles podem se amar muito, serem muito solidários uns com os outros, mas também podem ‘se passar da cabeça’. Mas na verdade, é assim em todo o lado, seja ali ou no Brasil. Por isso digo, é possível que algumas pessoas possam ver as coisas assim, mas seria uma péssima interpretação e argumentação. Há muita ternura e não uma caricatura. Se alguém me acusar disso, seria desonesto.
Eu mesmo faço parte daquela montanha, sou filha de emigrantes. E eu mesma critico muitas vezes a postura dos emigrantes, quando regressam no seu belo carro, etc, pois há um fundo social de exibição da riqueza. Mas também tenho ternura para eles, pois existe o orgulho de terem escapado de uma certa pobreza.
Uma das coisas que nunca falta ao filme, até para aliviar a tensão, é o humor, como aquela cena em que vemos o miúdo a matar moscas. Como foi introduzir esses pedaços de humor no filme e quão importantes eles são?
É cinema. A imagem que tenho dessas situações, quando estamos em momentos de extremos emocionais, submergidos no drama, é sempre algo que não tem nada a ver e que se inspira em momentos reais. Não queria carregar apenas na tecla do melodrama e exceder-me nisso, por isso essas cenas tinham de aparecer. Mas sempre sem cair na caricatura e no grotesco. Mesmo na cena do caixão, é como se estivéssemos no palco de um teatro cómico. A comédia, o humor, é extremamente necessária.
E como é trabalhar com não-atores? O Oliver Laxe diz que adora trabalhar com eles, mas que é preciso ter muita paciência…
Não tenho essa experiência e adoro trabalhar com eles. Paciência temos de ter sempre, até com atores profissionais, muitas vezes por causa do ego (risos). É outra forma de paciência, mas todos os atores merecem atenção. Trabalhar com atores é ter um cuidado, pois merecem carinho. O seu trabalho, o que vão fazer, é como saltar de uma montanha para baixo. É algo vertiginoso. Temos de lhes dar confiança. É extremamente importante dar atenção, ternura e afeto para os levar a ter confiança a deixarem-se levar pela visão de outra pessoa.
Escolho atores não-profissionais porque os conheço e porque frequentemente são eles que vão alimentar as personagens de ficção que escrevo. Estar com eles em palco é um pouco como as crianças, como a Salomé, que têm sempre o sentido de presente e de espontaneidade que muitas vezes se perde com os atores profissionais. Estes têm muita técnica e uma capacidade incrível de requisitar emoções. Com um não-ator, não consegues ir no mesmo caminho à procura de emoções, tens de ser muito mais preciso. O que faço no dia a dia é observá-los muito. Passo muito tempo com eles para os conhecer, saber como falam. Depois pego nas minhas cenas e integro os elementos da sua vida na minha história.
Com a Salomé foi diferente e tratei-a como se fosse completamente profissional, pois tinha de transmitir muitas emoções que estavam muito longe dela.

