Só uma frase da longa conversa do C7nema com a atual presidente do júri da mostra “New Directors” do Festival de San Sebastián deixa transparecer as opiniões da romena Alina Grigore sobre os 15 título sob a sua avaliação: “Está difícil o trabalho, pois há muitos bons filmes”.
Há um ano, a realizadora de 37 anos saiu do evento espanhol com a Concha de Ouro depois de impressionar uma equipa de juradas presidido pela cineasta georgiana Dea Kulumbegashvili com “Blue Moon” (“Crai Nou”). Trata-se de uma lavoura estética um tanto distinta dentro da Primavera Romena, movimento audiovisual mais sólido deste século, até agora, centrado no levante de Bucareste e arredores, a partir de filmes que discutem a corrupção estatal e abusos morais. Em doída atuação, Ioana Chitu interpreta Irina, estudante que luta para conseguir chegar ao ensino superior e, assim, escapar da violência da sua família problemática. Uma experiência sexual ambígua com um artista estimulará a intenção da mulher de combater essa violência familiar. Na entrevista a seguir, Alina conta ao C7 as armadilhas em que o audiovisual da sua pátria pode ter caído.
“Blue Moon” parece romper com um dos códigos da Primavera Romena, embora use muitos dos procedimentos desse movimento, ao trabalhar mais a dimensão existencial feminina do que a política. Que ruptura é essa e o quanto ela é consciente?
Quando escrevi o filme, construí um segundo guião, sobre os bastidores da personagem. Quando o submeti o argumento oficial e esse script secundário ao Fundo Nacional da Roménia, o projeto foi rejeitado. Cheguei a ler uma justificação de uma das avaliações que dizia que uma história do ponto de vista feminino não suscitaria interesse no ecrã, dentro ou fora do país. Fui rejeitada três vezes. Consegui 30.000 euros e filmei com isso. E com coragem. Filmei com a certeza de estar a fazer uma jornada emocional, a partir da qual eu discutia a mudança de papel nos processos de manipulação relacionados à violência contra as mulheres em que a vítima passa ao lugar de agressor. A agressão contra as mulheres na Roménia é muito alta, com maridos que matam as suas esposas, com brutalidades diárias. Falar disso levou-me a fazer uma história de solidão. Tenho, como todo o Novo Cinema da Roménia, uma influência do realismo, mas tento buscar novas formas.
Em 2005, “A Morte do Sr. Lazarescu”, de Cristi Puiu, abriu os olhos do mundo para a realidade da Roménia, filmando num sistema simbólico muito peculiar, compartilhado por outras vozes autorais de prestígio, como Cristian Mungiu, ao revelar, numa abordagem quase naturalista, o garrote de um estado corrupto no pescoço de toda uma geração. Mas há mudanças à vista nesse sistema? Ou ele se tornou uma forma que se estagnou?
Puiu foi meu professor. Aprendi muito com ele. E vejo o seu cinema recente seguir um outro caminho, diferente. Sinto que criamos, sim, um caminho, uma orientação. Ela deu muitas coisas boas, mas se estabeleceu como um formato, que passou a influenciar formas de financiamento. Tudo passa por financiamento. Quando um cineasta estreante faz o seu primeiro filme, tem muitos olhos em cima dele, passando pela exigência de ter que enviar o filme para algum festival importante, o que nem sempre é fácil. O que é imprescindível é que os filmes tenham boas histórias. Mas, a partir delas, é necessário se criar uma forma nova. Eu vejo “Crai Nou” como uma colagem, uma fuga do classicismo. Nada contra o cinema clássico. Mas existem muitos caminhos.
Há um projeto novo seu a caminho. Já tem título? Já tem forma?
É uma história, que ainda não tem título, sobre uma família que passa por um racha interno por uma polarização de opiniões entre seus integrantes. E, sim, vou tentar buscar uma forma diferente, sem me repetir, buscando uma voz.


