Tea Lindeburg: ‘O sangue é a metáfora da descoberta’

(Fotos: Divulgação)

Apesar de desfalcado pela ausência de Glenn Close, que desistiu da sua participação como presidente alegando problemas de saúde em família, mas bem no meio do escândalo em torno de Sparta, de Ulrich Seidl, o júri do 70º Festival de San Sebastián conta com a mirada delicada de uma cineasta que deixou a Península Ibérica com o prémio de Melhor Realização no certame, em 2021: a dinamarquesa Tea Lindeburg.

Com a tarefa de julgar os 17 concorrentes à Concha de Ouro de 2022, numa maratona audiovisual iniciada na manhã desta sexta-feira, com a exibição de Runner(concorrente dos EUA, assinado por Maria Mathias), a realizadora escandinava se divide entre a sua missão em Espanha e a carreira do seu premiado As In Heaven (Du Som Er I Himlen) pelo mundo. A edição de setembro da revista Cahiers du Cinéma estampa uma página de anúncio à longa-metragem, que estreia em França no dia 21, com o título La Dernière Nuit de Lise Broholm.

Inédito em Portugal, no Brasil a produção passou na Mostra de São Paulo, em outubro passado, com uma tradução literal: “Como No Céu”. É o primeiro trabalho de Tea no formato após uma aclamada trajetória em curtas e séries de TV, entre elas o filme de culto europeu “Equinox”, de 2020.

A sua estrela, Flora Ofelia Hofmann Lindahl, também saiu premiada de San Sebastián, em 2021. Foi contemplada com a Concha de Melhor Interpretação, que dividiu (ex aequo) com a norte-americana Jessica Chastain (laureada por “Os Olhos de Tammy Faye”). A trama recria a realidade da Dinamarca dos 1800, na ilha de Fiónia (Fyn), uma das maiores do país. Aí, Flora Ofelia vive Lise, uma adolescente de 14 anos, a mais velha entre os irmãos e também a primeira da família a frequentar a escola, o que a enche de esperanças para o futuro. Porém, quando a mãe entra em trabalho de parto, ela não demora a perceber que algo está errado. Conforme a noite avança e o parto prossegue, com urros de dor, Lise começa a compreender que esse dia pode terminar com ela na posição da mulher da casa, tendo a sua juventude atropelada por uma tragédia.


Em entrevista via Zoom ao C7nema, Tea analisou a condição trágica retratada no seu flme.

A que Dinamarca a Lise pertence?

Talvez a palavra “terra” seja a melhor resposta, ainda que desconfie de que o pertencimento que me atrai discutir fala da condição feminina e das suas agruras. Não sei se o facto de ser mulher torna mais difícil ou não a conexão de um indivíduo com um grupo. Não sei o quanto ser mulher amplia os conflitos de identidade numa realidade da Escandinávia tão diferente daquela em que vivo. Suspeito de que isso seja uma condição inerente à toda a natureza humana e não apenas à vivência do feminino em si. O que me guiou aqui foi poder falar sobre as angústias de uma menina, interpretada por uma atriz que tinha apenas 15 anos nas filmagens. A menstruação, e o desabrochar a ela inerente, é uma metáfora.

Vem daí a omnipresença do sangue, nas roupas e nos lençóis da parturiente, assim como o vermelho terrígeno que se espalha pela palete cromática do filme?

A forma desta obra é uma reação aos sentimentos de Lise e espelha o seu querer. É uma referência que se dá pelo sangue e pelo uso da cor vermelha como um todo. O sangue simboliza tanto a fonte da vida que está para nascer como também pode vir a simbolizar o fim. Mas o que mais me interessa nesta narrativa é acompanhar a transformação de uma menina em adulta, através de uma tragédia.

Como se deu o processo de direção de Flora Ofelia em cena?

Escolhi uma jovem mulher que sabe encarar o mundo ao seu redor com coragem, mesmo diante da dor do luto. O silêncio que a cerca é a sinfonia das incertezas.


San Sebastián segue até o dia 24, quando será anunciada a premiação e a projeção de Marlowe, de Neil Jordan, que encerra o evento.

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