Laure Portier desconstrói clichés em “Soy Libre”

"Soy Libre" faz parte da programação do IndieLisboa

Retrato íntimo da busca do seu irmão mais novo, Arnaud, pelo seu lugar na sociedade, construído a partir de imagens e sons crus que acompanham durante uma década um jovem que tenta fugir a um destino minado de clichés, enquanto traça um mapa afetivo sobre o relacionamento de irmãos e o próprio processo de filmagem, “Soy Libre” foi uma das coqueluches da última edição da L’Acid em Cannes. 

Arnaud teve uma infância difícil e o determinismo parece acompanhá-lo. Rejeição do pai, desinteresse das instituições, conflitos, criminalidade e o entrar e sair da prisão tornam-se o quotidiano, percorrendo Laure Portier com ele, entre França, Espanha e o Perú, o percurso de alguém que almeja a  felicidade, que quer mulher,  filhos e uma casa no campo, mas que só sabe se expressar através da violência.  

Quando comecei em 2005 não sabia o que iria conseguir com as filmagens, apenas tinha o desejo de fazer cinema juntamente com ele”, explicou ao C7nema a realizadora no Festival de Bruxelas, cidade que a realizadora francesa escolheu para viver nos últimos anos. “Só na montagem é que entendi que estava a fazer um filme sobre a nossa relação”.

Soy Libre” não é a primeira incursão de Portier ao seio familiar. Antes, a cineasta lançou “Dans l’oeil du chien”, uma curta onde a sua avó, que também surge na parte final deste novo filme, estava em foco. E é um filme também que Laura, ao falar dos outros, fala de si mesma. “Nesse primeiro filme posicionei-me nele e era por demais evidente que estava a abordar a relação com a minha. Em todos os nossos projetos, mesmo os experimentais, falamos de nós próprios (…) O mais difícil no ‘Soy Libre’, além da seleção das imagens captadas pelo meu irmão, foi a parte final da montagem. Foi o trazer a minha personagem, a minha presença, estabelecendo assim a relação irmão-irmã. ”.

O Íntimo

Reunindo cerca de 80 horas de filmagens ao longo de uma década, a que se seguiu um longo período de montagem e criação de imagens que acrescentam algum distanciamento e poesia às figuras retratadas, para Laura a intimidade não se afigura como um foco da objetiva, mas mais como o irmão lidava com ela. Isso mesmo vislumbra-se quando Arnaud toca no tema da rejeição parental, onde a importância das palavras suplantava a importância do ato em si. “O mostrar o íntimo é sempre um jogo de equilíbrio, por isso é que no fim, mesmo que pareça gratuito, era importante mostrar como ele vê a parentalidade, fazendo uma conexão com o passado”.

Soy Libre

O título do filme vem mesmo das palavras de Arnaud e faz também referência à geografia onde se sediou e construiu a família, longe dos preconceitos que se estabeleceram contra ele por onde passou na Europa, entre eles a “falta de canudo”. que tanto condiciona as vidas no velho continente. Porém, para Laura, existe nesse título também um questionamento. “O que é ser livre?”, pergunta-nos. 

O Futuro

Com dois documentários no currículo, Laure Portier vai agora trabalhar no campo da ficção, mas não de forma convencional. “O que caracteriza muito o meu trabalho é o questionar o que acontece se não olharmos o outro. Quando comecei a filmar o Arnaud tinha 20 anos e fui instigada pela falha da responsabilidade da sociedade em olhar por aquele rapaz. O que continuarei a procurar mostrar no futuro é o que se passa se não olharmos para as pessoas. (…) Não gosto do termo ‘social’ para o meu cinema e prefiro antes falar de um exercício de olhar, que creio que se coaduna mais com o trabalho do artista”.

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