Quentin Dupieux: “o termo absurdo soa-me velho”

(Fotos: Divulgação)

Quando falamos dos filmes de Quentin Dupieux, músico transformado em realizador, os seus enredos e personagens mirabolantes frequentemente invadem os ecrãs com grandes doses de surrealidade. Basta pensar no seu pneu assassino (“Rubber“), num assassino que procura ter todos os casacos de camurça do mundo (“100% Camurça“) ou uma mosca gigante que se transforma em animal de estimação de uma dupla de amigos (“Mandíbulas“).

O seu novo filme, “Incroyable mais vrai“, estreado na Berlinale e presente no programa do IndieLisboa, caminha pelos habituais caminhos do bizarro e absurdo daquele que muitos ainda conhecem do mundo da música como Mr. Oizo, contando a história de um casal que, depois de comprar uma casa, descobre que na cave existe uma “porta” que lhes permite ficarem 12 horas mais novos quando entram. Essa retroceder no tempo e o facto de ficarem mais novos vai-se tornar uma obsessão para a personagem interpretada por Léa Drucker, que começa a ambicionar ser jovem e modelo. Ao seu lado encontramos Alain Chabat, no papel de marido, enquanto Benoît Magimel e Anaïs Demoustier fazem o papel de um casal amigo, também eles com uma novidade sensacional para contar. É mais uma incursão louca na comédia de Quentin Dupieux, que desta vez deixa um pouco mais de espaço que o habitual para o estudo das crises de meia idade e o medo de envelhecer.

Incroyable mais vrai” foi escrito já com Chabat e Drucker em mente como protagonistas.

Misturo elementos surreais e outros reais, como as questões e dúvidas ligadas à idade e problemas de casal de uma forma natural. Se não existisse o elemento surreal no meu filme, teríamos apenas e só mais um filme sobre viagens no tempo. Isso para mim não chegava, da mesma maneira que não bastava filmar pessoas a conversarem à volta de uma mesa sobre crises de meia idade.”, explicou o cineasta ao C7nema, isto num momento em que já tem um outro filme pronto para estrear este ano (“Fumer fait tousser“), em Cannes ou Veneza. “Sinto uma necessidade de misturar as coisas e não sou só eu. Há 20 anos bastava fazer uma simples comédia ou apenas um filme de terror. Hoje acrescentam-se outros elementos (drama, por exemplo) e tudo está misturado. Até os filmes de ação já não são apenas disso (…) Eu gosto do absurdo, mas até esse termo já me soa a velho hoje em dia. Veja o mundo em que vivemos, tudo é absurdo(…) Embora não faça disso um desafio, o fazer coisas mais absurdas a cada vez que filmo, tornou-se mais difícil escrever algo absurdo neste mundo absurdo. Mas nunca forço nada”.

Numa entrevista que futuramente publicaremos na integra, Dupieux explicou ainda que é extremamente difícil “vender” os seus filmes a um produtor a partir apenas da história: “É um pesadelo fazer o pitching dos meus filmes, ou seja, não consigo. Tenho de mostrar todo o guião, pois se contar a história em algumas linhas, não tem sentido para ninguém. Quando expliquei de que tratava o ‘Rubber’ (Pneu), todos se riram de mim. Fiz esse filme com menos de 200 mil euros, que é o que muitas curtas-metragens gastam hoje em dia. Esse filme era impossível de fazer o pitching, vejamos: ‘ Ah, sim, é sobre um pneu assassino.” Ninguém levava a sério,”

[Texto originalmente publicado em fevereiro de 2022]

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