Depois de “Alvorada”, uma delicada operação documental de observação dos últimos dias de Dilma Rousseff, feita a quatro mãos com Anna Muylaert, a cineasta Lô Politi resolveu encarar os dilemas do amor familiar, pelo prisma da paternidade, numa espécie de “Paris, Texas” do interior do Brasil: “Sol”.
Um dos mais elogiados concorrentes ao troféu Redentor do Festival do Rio 2021 (que termina neste domingo), o filme marca o regresso da diretora de “Jonas” (2015), uma premiada fábula de tons românticos, ao universo da ficção. A sua passagem pela Mostra de São Paulo, em outubro, foi regada a elogios. Na trama, Téo (Rômulo Braga), um pai recém-separado, que não consegue se reconectar com a filha de 10 anos, é obrigado a viajar com ela para o interior do país em busca do próprio pai, Teodoro (Everaldo Pontes), que o abandonou quando criança. Um pai que, agora, idoso, deseja morrer. O convívio forçado com esse homem que ele odeia, prejudicado pela imediata conexão da garota com o avô, testam todos os seus limites, mas pode ser a chance de um rearranjo afetivo. Na entrevista a seguir, a cineasta conta ao C7 sobre o que descobriu em sua nova imersão nas angústias masculinas.

Qual é a ideia de paternidade que rege as personagens centrais a partir de uma relação de ausência e de reencontro?
Existe essa coisa… esse paradigma… de como os homens lidam com a emoção de uma forma completamente diferente das mulheres. Para mim, tenho uma vontade e curiosidade muito grande de investigar esse lugar. O “Jonas”, minha longa-metragem de ficção anterior, já foi isso. E o “Sol” é ainda muito mais debruçado sobre como os homens soterram as coisas emocionais. Téo não consegue olhar para a sua história de tanto que dói. São muitos anos soterrando um sentimento e, quando ele vê suas questões com o pai espelhadas na relação com a filha, ele precisa enfrentar o que ficou soterrado. É muito interessante olhar para dentro do homem com uma visão masculina, uma visão que não é um lugar de fala natural meu. Existe essa vontade minha de olhar para isso. Acho bonita essa história das três gerações. O Teodoro é esse homem sertanejo e artista. Para onde o lugar de artista pode levá-lo, ele vai. Ele tem uma coisa dessa paixão louca por essa mulher que fez ele se afastar do filho e da mulher dele, pelo emocional. Outra vez aparece a dificuldade que os homens têm de lidarem com escolhas. Aparece uma situação em que você não tem o que fazer, por envolver um amor louco. Por não se saber como lidar com a história que se está deixando. O tempo é muito cruel com o amor. A gente tem um problema e deixa para resolver amanhã, com medo de encarar, e passa uma vida inteira empurrando fardos. Existem relações amorosas familiares que não são da nossa escolha. Mas também não é da nossa escolha sofrer loucamente quando essas relações dão problema.
Quais são os Brasis que o seu “Sol” ilumina na relação entre as personagens Téo e Teodoro? Que Brasis estão no extremo desses homens?
O Brasil do Teodoro, esse Brasil um pouco afastado e um pouco não visto pelo resto do país, esconde a essência do que é o Téo. Ele é um cara urbano, bem-sucedido, com uma vida interessante, mas tem um vazio enorme nele. O único jeito de encarar o vazio é ir para esse lugar que é um vazio de facto. São dois Brasis diferentes. São homens forjados em situações completamente diferentes. Há uma ligação muito forte entre eles, mas há uma dificuldade de redenção dessa relação, por conta da passagem de tempo. Essa história não tem mais como se resolver. Então, a oportunidade que a narrativa dá para o Téo é resolver isso com a filha. O filme é melancólico, mas com um final feliz.
De que maneira “Sol” se encaixa em sua trajetória recente de realizações? Trajetória essa que surpreendeu o Brasil com a contundência do dispositivo observacional de “Alvorada”.
Quanto a uma relação com o “Alvorada”, eu acreditava por um tempo não ter nada a ver. Foi um filme feito fora da rotina da minha vida e da minha carreira. Só agora vejo o quanto tê-lo feito antes do “Sol” foi importante. Essa coisa real de ficar dois meses observando uma personagem, sem interferir, é um processo muito intenso e dramático. De alguma maneira, quando fui para o “Sol”, encarei esse processo como uma evolução grande. O “Alvorada” é uma narrativa inteira de “não-ditos” e de subtexto. Isso já vinha do roteiro. E, na maneira de filmar, foi muito determinante para o resultado do filme. Temos um personagem que não fala e é muito potente como personagem. Isso foi um exercício para trazer meu olhar mais intensamente para esse lugar de observação, de aprofundamento, de saber dizer as coisas de uma maneira não dita, dizendo mais que o dito.

