Visto por 283 mil espectadores em França, onde inaugurou o 74º Festival de Cannes, em julho, conquistando o prémio de melhor realização, “Annette”, musical com Marion Cotillard e Adam Driver, marcou a volta, em tons triunfantes, de Leos Carax, mas marcou, no bojo das suas experimentações, uma outra consagração, esta no campo musical: com o filme, os Sparks voltaram a explodir na cena pop.
Nove anos depois de desafiar conceitos filosóficos com o seu “Holy Motors” (2012), Carax decidiu narrar a paixão entre um humorista arrogante e uma diva do canto – com todas as trágicas consequências inerentes a esse querer – a partir de uma roupagem musical que desafiasse as convenções do género. Uma das canções escritas pelo duo formado pelos irmãos Ron (no teclado) e Russell Mael (no vocal), usada na abertura e no trailer da longa-metragem – “So May We Start” – vem sendo encarada como aposta para o Oscar 2022. Essa especulação tornou-se ainda mais forte depois da estreia do documentário “The Sparks Brothers”, de Edgar Wright (“Last Night In Soho”), com base na invenção que os Mael têm deixado como legado para a música.

“Tenho a sensação de que o rock ainda é capaz de mudar as pessoas. Ao longo do tempo, preocupamo-nos em criar um universo, incluindo os nossos discos e videoclipes. Vemos um filme com o grau de invenção de ‘Annette’ como uma extensão desse mundo paralelo que inventamos”, disse Ron ao C7nema, numa entrevista via ZOOM agendada pela MUBI, onde o filme será lançado, no Brasil, no dia 26 de novembro, após uma consagrada trajetória pela 45ª Mostra de São Paulo, no mês passado. “Eu vejo em Carax um cineasta personalíssimo, que se preocupa mais com a sua arte do que com demandas mercadológicas. É como nós”.
Na sua investigação documental, Edgar Wright mostra como a dupla americana passou a ser chamada de “a mais inglesa das bandas da Califórnia” ao apostar em letras que parecem ser rapsódias, contando narrativas épicas sobre os EUA e sobre o querer. Hits como “This Town Ain’t Big Enough For Both Of Us” e “When Do I Get To Sing ‘My Way‘” garantiram prestígio aos Mael. “O documentário foi importante para deixar explícito para as pessoas que a liberdade artística é fundamental para o modo como trabalhamos. E encontramos essa ressonância em Carax”, diz Russell ao C7. “Ele não é um compositor, mas usa a música como um norte para a maneira como cria as suas cenas”.

Letras como “She’s Out Of This World!”, “Let’s Waltz In The Storm!” e “Girl From The Middle Of Nowhere” dão a “Annette” um misto de lirismo e irreverência que só os Sparks têm. Na trama, a cantora Ann Defrasnoux (Marion Cotillard) e o dínamo da comédia stand-up Henry McHenry (Adam Driver, em atuação espetacular) vão viver um amor tórrido até esbarrarem no impasse do ciúme profissional. Ela descola na carreira. Ele afunda. Junte a essa tensão entre os dois a aproximação obsessiva de um maestro (Simon Helberg, de “Big Bang Theory”) e a chegada de um exótico bebé.
“A consagração de Carax e o documentário trouxeram uma nova atenção internacional para o que nós, Sparks, queremos compartilhar com as pessoas, num momento em que temos uma tournée de 18 shows para fazer, com a Europa em vista”, diz Russell, que, aos 73 anos, mantém uma voz finíssima, capaz de agudos que encantaram os timbres do rock’n’roll em iguarias canoras como “Falling in Love with Myself Again”.
Em atividade desde os anos 1960, quando começaram, timidamente, explodiram após o êxito de vendas do LP “Kimono My House”, em 1974. Ron, hoje com 76 anos, viu (e ouviu) canções como “Amateur Hour” abrirem as portas do mundo – e agora da MUBI – para os dois. “Tocamos muito no Japão e é engraçado perceber que tem gente a tocar Tom Jobim lá”, diz o teclista e performer. “Temos seguidores porque fazemos o que fazemos com perseverança. E um cineasta como Carax também segue essa linha”.

