Lav Diaz e a sua nau navegam pelas águas turbulentas da História

(Fotos: Divulgação)

Neologismo ligado a uma produtividade prolífica, “imparável” é o termo que melhor define a trajetória audiovisual do filipino Lav(rente Indico) Diaz nas telas nos últimos dez anos, quando a sua carreira como realizador, iniciada em 1998, ganhou um prestígio internacional singular ao ser coroada com o Leão de Ouro de Veneza.

Em 2016, ele arrebatou o Lido com “A Mulher Que Se Foi”. No mesmo ano, saiu premiado da Berlinale com uma loooooooooonga-metragem de oito horas: “Canção Para um Doloroso Mistério”. Dali para a frente, produziu a todo vapor: rodou três filmes em 2018; dois em 2019; e três em 2020, sendo que um deles, o delicado “Genus, Pan” (“Lahi, Hayop”), ganhou o prémio de melhor realização na mostra Orizzonti veneziana do ano passado. Em 2021, ele reapareceu no início do mês no BFI – London Film Festival com um épico devastador: “Historya Ni Ha”. Sempre preocupado em revisar a História, a partir dos mitos fundadores das Filipinas, o cineasta de 62 anos recria a saga de Hernando Alamada, um engajado socialista que cumpre a última etapa de sua tournée de apresentação no navio de cruzeiro Mayflower. Ele sabe que a sua nação está a passar por uma amarga transição mais uma vez, pois o amado presidente Ramon Magsay morreu repentinamente num acidente de avião. Ele se prepara para uma viagem sem rumo, a fim de fugir do turbilhão geopolítico que o aguarda. Mas a sua navegação há de ser ainda mais turbulenta, numa narrativa pautada pela loucura, com todas as tintas alegóricas que caracterizam a obra do diretor.

No dia 30, Lav apresenta a longa-metragem na Viennale. No dia seguinte, vai chegar ao Hong Kong Asian Film Festival. Na entrevista a seguir, Diaz explica ao C7nema que novas perspectivas esse projeto abre no seu trajeto pelo cinema.


De que forma o navio Mayflower poderia representar uma metáfora para as próprias Filipinas, à deriva num mar de imperialismo na narrativa do seu novo filme?


A verdadeira narrativa do Mayflower original, aquele que navegou e trouxe o primeiro grupo de peregrinos da Inglaterra para o Novo Mundo, é mais sobre a luta humana, o sofrimento e, de certa maneira, a libertação, embora a base da batalha de seus tripulantes, em solo, fosse especificamente religiosa. A maioria das pessoas que fizeram parte dessa primeira viagem foram exilados religiosos ingleses que se estabeleceram temporariamente em Leiden, na Holanda. Eles deixaram a Inglaterra porque não queriam se submeter às imposições religiosas do Rei Jaime VI, dos seus bispos e aceitar as perseguições. Mesmo pelos padrões modernos, a sua visão e tenacidade para criar uma nova comunidade – uma nova nação num reino inexplorado – eram corajosas e radicais. Era até imprudente, punk e poético fazer o que fizeram.

Com escassez de suprimentos, eles suportaram uma jornada de dez semanas carregada de tempestades nos mares agitados e, então, infelizmente, o inverno sombrio que os acolheu matou quase metade deles. Pense na poderosa letra de Paul Simon numa das suas grandes canções: “We come on the ship that sailed the moon”.O Mayflower no meu filme é uma ironia, uma expressão burguesa e é, também, uma preparação para o teatro do atributo absurdo que crio em cena. É um navio de cruzeiro. Por isso, as imagens imediatas evocam decadência e apatia. Você vê um marxista desiludido entre os seus intérpretes. Vê os proletários (empregados da limpeza, trabalhadores da cozinha, prostitutas, a tripulação) e vê, é claro, os ricos e os poderosos. Eles navegam juntos. Aí está, o quadro completo da ironia. Há a imagem da vastidão da água e, nela, há o navio. Mas o que estou vendo é o arquipélago filipino de mais de sete mil ilhas, semelhante a um entulho flutuante, navegando tristemente até o nada. E precisamos repará-lo com todo nosso poder humano, examinando e confrontando o que o causou essa tristeza e as suas consequências: colonização, imperialismo, fascismo, disfunções culturais.

Que dimensão heróica carrega uma figura como Hernando Alamada, e quão representativo é esse heroísmo do que as Filipinas precisam esquecer e o que seu país precisa comemorar?

Um observador atento verá mais de uma figura santa de Hernando Alamada. Eu o escrevi como uma representação quase idealizada do que um bom ser humano deve ser, de forma hagiográfica. Ele é conflituoso e complexo, por conta das raízes psicológicas de sua desilusão, mas então ele é altruísta, um indivíduo profundamente responsável, e também um verdadeiro anarquista. As Filipinas haviam vivido duas épocas eufóricas que se transformaram em cataclismos. O último quarto do século XIX viu a chegada do Dr. José Rizal, uma figura monumental entre os filipinos malaios. Os seus escritos, especialmente os dois romances, “Noli Me Tangere” e “El Filibusterismo”, incendiaram a Revolução Filipina contra a Espanha. A sua execução pública, a 30 de dezembro de 1896, ano em que a revolução começou, celebrizou para sempre um ideal que até hoje permanece na psique dos filipinos: se Rizal tivesse vivido, as Filipinas hoje se encontrariam num lugar melhor.

A morte inesperada e chocante do presidente Ramon Magsay, em 1957, teve o mesmo efeito sobre os filipinos. Ele foi um lendário líder guerrilheiro durante a ocupação japonesa e, após a II Guerra, tornou-se um personagem dominante. Ele se tornou presidente e sua ascensão meteórica foi tão repentina que deixou uma fratura psicológica e um vazio grande na nação caloura. Por duas vezes, o meu país perdeu dois de seus supostamente grandes heróis e líderes. A ascensão do ditador Ferdinand Marcos e agora o populista Rodrigo Duterte são percebidos como resultados diretos dos anseios das massas pela vinda de um novo herói, um novo Cristo filipino. Ambos usaram a mesma concepção persuasiva para as massas ignorantes e indefesas – destruindo a oligarquia. Mas eles mesmos são oligarcas. Marcos, ao declarar a lei marcial, rapidamente controlou todas as instituições e as grandes empresas. Duterte, com os seus intermináveis meandros e conversas sujas, geralmente dirigidas a seus inimigos e detratores, há muito tempo vive como um rei e um senhor da guerra na sua província natal, na parte sul do país. Eles têm tido muito sucesso em criar mitos e contos apócrifos em torno de sua persona. O atributo dominante de ambos é que eles são criaturas muito violentas.

Em que ponto o cinema que você faz a partir de uma perspectiva histórica é documentário e em que ponto é ficção?

Vejo o meu trabalho como uma combinação de ambos. Não há nenhuma linha que os separe de forma alguma. Como a narrativa ficcionalizada e as personagens que escrevo e crio são sempre referenciadas e inspiradas por personagens reais, não vejo realmente como rotular os meus trabalhos. Para mim, a definição de documentário foi além da maneira como é normalmente descrita e vista. O mesmo vale para a ficção. Vamos chamá-lo de “meta-cinema”.

O que o preto e branco simboliza como uma expressão estética de representação do gesto real e político contrário à natureza do espetáculo do cinema comercial?

Subversão é o meu preto e branco. Desde o início, subverto convenções. Por ter crescido imerso em um oceano vasto de cinema em preto e branco, tive uma grande relação com a estética P&B. E essa referência veio naturalmente quando o cinema transformou-se no meu instrumento de expressão, no meu instrumento de combate à tirania de todas as formas e rostos. 

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