Fátima: Marco Pontecorvo filma a transcendência da fé pelas lentes do real

(Fotos: Divulgação)

Sucessos populares como “Cartas para Julieta” (2010), com Vanessa Regrave e Franco Nero, e filmes de culto como “A Trégua” (1997), de Francesco Rosi, fazem parte do repertório profissional de Marco Pontecovo nas suas atividades como diretor de fotografia, essenciais às escolhas que passou a tomar na sua atual carreira como realizador, onde assinou “Fátima”.

Já em cartaz em Portugal, o filme está prestes a estrear no Brasil a reboque do feriado do Dia da Padroeira, Nossa de Senhora, celebrado a 12 de outubro.

Filho de Gillo Pontecorvo (1919–2006), um dos papas do cinema político dos anos 1960 e 70, nomeado aos Óscares por “A Batalha de Argel” (Leão de Ouro de 1966), Marco reconta o episódio histórico de 13 de maio de 1917. Na ocasião, Lúcia dos Santos, de 10 anos, Francisco, de 9 anos, e Jacinta Marto, de 7, afirmaram ter visto “uma senhora mais brilhante do que o Sol”. A mesma “senhora” teria aparecido sobre uma azinheira de um metro ou pouco mais de altura, quando apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria, próximo da aldeia de Aljustrel.

Na longa-metragem, essa manifestação do Altíssimo rende um estudo sobre a arte de crer, tendo Joaquim de Almeida como o padre Ferreira; Sonia Braga como Lúcia em sua idade adulta; e Harvey Keitel como um investigador. Para encarnar a mãe do filho de Deus, Pontecorvo escolheu Joana Ribeiro, estrela de “O Homem Que Matou Dom Quixote” (2018), de Terry Gilliam, ao lado de Adam Driver e Jonathan Pryce.

Fátima

Na entrevista a seguir, Marco fala ao C7nema sobre o fardo de emprestar uma mirada realista ao manto de Nossa Senhora.

Quanto é que o mito da Nossa Senhora de Fátima traduz o espírito de fé dos povos europeus e quanto é que ele extrapola as dimensões de Portugal? Quanto é que esta história o aproxima de uma mitologia cristã que hoje se depara com mil desafios?

A questão essencial desse filme é aproximar o realismo factual da transcendência, discutindo o que uma criança pode enxergar e os demais, não. Empenhei-me o quanto pude para rodar o máximo desse filme em Portugal, com elenco local, discutindo o quanto a Natureza é um elemento essencial àquele povo. E, de certa forma, a evolução de Lúcia como personagem passa pela forma como ela se relaciona com o que é natural. 

O quanto o cinema português lhe serviu de referência? Existem vestígios de neorrealismo na sua forma de filmar a história de Fátima?

O cinema português não entrou como parâmetro, visualmente, mas os costumes de seu povo, sim. E Rossellini é um cineasta que está sempre comigo. Rossellini e todo o neorrealismo são referências essenciais ao meu olhar. É algo de que gosta. Passei anos como fotógrafo. Isso me dá um domínio técnico essencial, sobretudo para uma narrativa que se bifurca entre camadas de realidade e de metafísica.  

Falando dessa vasta experiência como diretor de fotografia, de que forma este olhar mais técnico para a imagem faz a diferença na sua forma de realizar, especialmente na interacção com os actores?

O domínio que os anos de prática me deu facilita a minha maneira de imprimir na tela o que eu busco dizer. E. neste caso, a relação com os atores vem numa carpintaria de gesto, numa arquitetura que se faz coletivamente. Sonia Braga, por exemplo, é uma atriz instintiva. Harvey Keitel, que integra o elenco, é um ator de método. Eles não chegam à verdade deles da mesma forma, mas chegam, cada um à sua maneira, a um lugar de transcendência.  

Quanto é que uma narrativa histórica entrelaçada com a metafísica (na figura de uma santa cristã) convida um filme como “Fátima” a se aproximar de narrativas fabulares? Pergunto isso porque detecto um traço quase documental na forma de filmar esse mundo rural. Que espaço para o realismo existe nesta história?

O realismo vem do olhar para um país. A metafísica vem do mundo que as três crianças portuguesas criam. Entre os dois, brota uma relação com o intimismo que percorre o que há de místico.

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