Durante uma conversa promovida pelo ator Josh Gad, em maio de 2020, no auge da primeira fase da pandemia, no canal do YouTube “Reunited Apart”, Viggo Mortensen reencontrou os seus colegas de “O Senhor dos Anéis” para uma conversa nostálgica acerca de um set que mudou a cultura pop.
Peter Jackson, realizador que levou a obra de J.R.R. Tolkien aos ecrãs, estava entre os convidados, juntando-se a Ian McKellen, Liv Tyler e Sean Austin e outras estrelas com as saudades voltadas para os feitos da franquia tolkiana. Naquele encontro, comovente para os fãs da Terra-Média, Mortensen, o Rei Aragorn da saga cinematográfica, gravitava por uma nova dimensão que não apenas a do ofício de atuar.
Mortensen chegou à celebração histórica armada por Gad como realizador, pois havia terminado de lançar “Falling”, o seu exercício inicial na realização, no Festival de Sundance. O filme está a chegar aos cinemas de Portugal, confirmando que o talento de Mortensen para atuar também tem continuidade em devir cineasta.
“Passei a minha vida em trânsito. Cresci na América do Sul, nas Pampas, entre a Argentina e a Venezuela, aprendendo a amar o futebol, a cultura latina e os grandes nomes da literatura e da poesia que o continente nos deu. E a lembrança de um mundo rural de muita beleza me faz pensar na importância das trocas culturais. Cada viagem me revelava novidades sobre gentes que não conhecia. Cada lugar se desnudava diante de mim. Eles se desenhavam para mim, na vivência. Pouco antes de realizar ‘Falling’, encontrei Agnès Varda num voo e tive a honra de viajar ao lado dela e da sua filha, Rosalie, que é produtora e uma grande figurinista. Comentei com ela sobre o meu desejo de realizar e ganhei um conselho: ‘Deixe a plateia descobrir o que queres contar’. Ali entendi que não valia a pena ser exibicionista. Era essencial saber ser menos”, disse Viggo ao C7nema, durante o Festival de San Sebastián, onde ganhou o Prémio Donostia pelo conjunto da sua carreira. “É importante que aproveitemos as viagens que o cinema nos abre para descobrir novas realidades”.

Prestes a voltar às telas em “Thirteen LIves”, de Ron Howard, em paralelo a seu compromisso com David Cronenberg, nos sets do esperado “Crimes Of The Future”, Mortensen ainda dedica parte do seu tempo, em 2021, para celebrar os 20 anos da trilogia “O Senhor dos Anéis”, iniciada em 2001, que lhe deu fama, como ator – e que ator ele é. Mas ele ainda tem que levar “Falling” no colo, de circuito em circuito, uma vez que o projeto tem um orçamento pequeno.
“O meu filho esteve comigo nos sets de “O Senhor dos Anéis” e tive a chance de vê-lo crescer enquanto eu trabalhava naquele universo de Tolkien, numa celebração da fabulação. Jackson fez muito por mim naquela trilogia e está entre os cineastas que marcaram a minha trajetória, no seu ímpeto criativo. Trago ele como inspiração”, disse Mortensen, numa das vezes em que passou pelo Brasil para celebrar as suas parcerias com cineastas latinos.
Ele esteve em “Na Estrada” (“On The Road”, 2012), de Walter Salles, quatro anos depois de protagonizar “Um Homem Bom”, de Vicente Amorim. E ainda protagonizou “Todos Temos Um Plano” (2012), de Ana Piterbag, e “Jauja” (2014), de Lisando Alonso, ambos gerados na Argentina. A imersão em terras latinas deu-lhe domínio do espanhol, uma das muitas línguas que fala, fluentemente. E deu uma conexão com novos formatos de produção, em lições criativas que alimentaram “Falling”. “Lembro-me de ter encontrado o ator jovem que faz o meu filme, num teste entre muitas crianças, e ter me encantado por ele por uma atitude muito particular, silenciosa e segura. Conversei com ele, sem qualquer hierarquia, perguntando: ‘Gostas de patos?’, por ter um pato em cena, numa situação delicada. Fui me guiando pela intuição, como aprendi com muitos dos talentos que me dirigiram”, diz Mortensen. “Dicas de artistas como Varda prepararam-me para criar uma história sobre perdão, com subtileza”.
Depois de três indicações ao Oscar, pelo seu modo febril de interpretar – obtidas com “Eastern Promises”, de 2007; “Capitão Fantástico”, de 2016; e “Green Book”, de 2018 – e depois de ter virado uma lenda pop como Aragorn, em “O Senhor dos Anéis”, Viggo emprega as suas vivências num drama que passa pelas trincheiras do ódio para se se afirmar como um estudo sobre a arte de saber envelhecer.

A personagem central é o rancheiro Willis, que na juventude é defendido com fúria pelo ator sueco Sverrir Gudnason. Devotado ao seu rancho, ele se enerva ainda mais ao se agrisalhar, sendo confiado ao ator Lance Henriksen (o agente Frank Black da série “Millennium”). O seu nervosismo explode com o passar dos anos, arrancando de Henriksen um desempenho áspero, de doer no peito da gente. Mas a medida da velhice, na alma desse irascível sujeito, tem como termómetro aquele rapaz das primeiras cenas, John, que, já adulto, ganha o talento – e que talento! – do próprio Viggo.
O amargor de Willis no trato com o mundo piora com a idade, ao contrário do que se passa com John: este, quanto mais velho, sente-se mais bem amado, sente-se mais bem resolvido na sua orientação homossexual e vive livre do alcoolismo da sua juventude, abraçado à paz. Ao menos é o que parece. O que lhe falta é estender essa harmonia ao pai. Essa será a sua jornada na trama escrita pelo próprio Viggo. “Temos uma jornada sobre envelhecimento diante de nós. E jornadas assim são pautadas pela medida de nossas memórias”, disse Viggo.
Como Willis está à beira da demência, há momentos em que passado e presente se confrontam na casa de John, onde os comentários homofóbicos e racistas do pai fazem arder a garganta do filho e do seu marido, o enfermeiro Eric (Terry Chen). Willis ofende o casal a toda a hora, assim como é hostil com a sua filha, vivida por Laura Linney. A sua boca é um esgoto que vaza brutalidade. Mas, no seu amor incondicional, John sabe filtrar a sujeira e buscar a humanidade que sobrou no espírito alquebrado do seu velho. Esse processo de filtragem é retratado por Viggo com uma suavidade sedutora, traduzida na paleta de cores nunca saturadas da fotografia do dinamarquês Marcel Zyskind.
Cronenberg, que redefiniu o trajeto profissional de Viggo ao escolhe-lo em “Uma História de Violência” (2005), tem um cameo, como o proctologista que trata de Willis. “O David e eu vivemos muitas história juntos”, disse Viggo. “Filmei levando as minhas experiências de set, em escolhas que apostassem nos sentimentos”.

