Para Saeed Taji Farouky, um palestino-britânico que veio do jornalismo para o cinema documental, a presença do seu filme, “A Thousend Fires”, no Festival de Locarno, inserido na Semana da Crítica, provoca-lhe sentimentos que refletem um sonho de miúdo. “A ideia de ter o teu filme num festival desta escala, ainda por cima não exclusivo do documentário, é como um sonho tornado em realidade”, diz-nos logo a abrir uma entrevista onde falou do seu cinema, das influências (é um enorme fã de “Terra Franca” de Leonor Teles) e motivações, não apenas daquilo que o levou até Myanmar para filmar este documentário sobre gente real entregue aos desígnios do capitalismo e imperialismo.
As franjas do negócio do petróleo foi o ponto de partida, um “grande animal” e um termo intelectualizado que muitas vezes se fala de forma abstrata e que se associa apenas aos grandes donos e empresas que a exploram. Nisto, esquece-se todos aqueles que ainda trabalham nessa indústria em pequenas explorações como fonte de subsistência e a forma de escaparem à pobreza, complementando a vida agrícola. É o caso dos nossos protagonistas, uma família que consegue explorar um barril a cada poucos dias, vendendo-o em estado bruto aos refinadores locais. “Todos os grandes poços de petróleo já foram descobertos, por isso temos de ir até aos limites da exploração. Sempre quis ver como era esta indústria no terreno, na prática, de perto. Tive uma abordagem inicial jornalística, de investigação, e descobri novos países onde essa indústria ainda tem a sua exploração artesanal. Isso levou-me a Myanmar e juntamente com o meu assistente de realização, Joshua Min Htut, andamos pela região a conhecer pessoas que trabalhavam nisso. Quando conheci o Thein Shwe, o meu desejo de o filmar foi imediato. Havia uma enorme curiosidade mútua”.
Começou então um processo de 120 horas de filmagens durante cinco anos. Farouky reconhece que não é um daqueles realizadores que deixa a câmara filmar e esperar o inesperado, admitindo que à medida que foi captando a família em questão começou a entender o seu ritmo e a sentir e prever os momentos de evenual tensão, alguns dos quais captou com a sua câmara.O resultado final, “A Thousend Fires”, é um estudo humano de luta contra a pobreza, não faltando – naturalmente – uma dimensão etnográfica, antropológica, política e social.
Jornalismo e linguagem documental
“O jornalismo está na investigação, mas no fundo quero fazer filmes sobre pessoas. Anteriormente fiz um filme sobre a guerra no Afeganistão [Tell Spring Not to Come This Year, 2015], mas seguia dois soldados. Não faço filmes sobre conceitos, mas sobre a natureza humana, indivíduos, linguagem corporal e a relação e interação deles com a Terra. A linguagem visual foi definida pela família, pelo seu ritmo de vida. No Afeganistão havia uma guerra, logo o ritmo era mais acelerado e a câmara mexia-se mais, até pelo sentido permanente de perigo. Em Myanmar o ritmo de vida é muito lento, muito deslocado e isolado em relação ao que está à sua volta. Pela primeira vez na vida pousei a câmara num tripé. Existe sempre uma relação física com a câmara e, também, como já me sinto mais velho, não consigo andar 12 horas com ela na mão. Quando percebemos isso e vemos o envelhecer e temos consciência da mortalidade, necessitei de ser mais paciente e observar. Deixar entrar e sair coisas do quadro fílmico. De facto, só seguia os movimentos da família”.
“Fugir à estrutura e narrativa convencional é um ato político”
Para Saeed Taji Farouky, a narrativa deve ser encarada pela sua movimentação psicológica e não deve ser arrastada por um enredo, uma trama. Segundo ele, um bom exemplo é o caso da Palestina, cuja narrativa “tem sido mal apresentada há séculos“. A estrutura narrativa típica, onde se criam bons e maus, reflete uma forma política de gerir a História: “Quando representamos isso de forma diferente é um ato político. Um dos aspetos principais do imperialismo é criar uma narrativa do bom vs o mau. Conseguindo vender essa narrativa tornas-te uma nação imperialista, como a Grã Bretanha, que diz que fez sempre tudo para civilizar o mundo”.
Na esfera do cinema e com o surgimento das plataformas de streaming global, outros perigos se afiguram: “O imperialismo cultural é um braço gigantesco do colonialismo. Os bons, os militares, as invasões fomentam isso. E há uma indústria a viver disso tudo. Por isso, contar histórias diferentes é algo radical.”
Uma experiência pessoal
Sendo um cineasta estrangeiro numa terra que não a sua, filmar durante cinco anos a vida de uma família pobre dedicada à exploração artesanal do petróleo como forma de subsistência, trouxe ao realizador mais do que apenas uma experiência profissional e maior maturidade. Além disso, ele confessou-nos que fazer este filme ajudou-o a entender um pouco melhor a vida que o seu pai levou para conseguir educar dois filhos: “O meu pai trabalhou completamente orientado para nos dar uma vida melhor, mas nesses tempos nunca realmente mostrei apreço por isso. Filmar alguém que nada tem a ver contigo e chegar à relação com o meu pai foi estranho. Esta família vivia num clima de honestidade e generosidade que ensinou-me muito sobre mim.”



