Mais conhecido por os “Os Falsificadores”, filme que lhe valeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Stefan Ruzowitzky estreou no Festival de Locarno “Hinterland”, um thriller de investigação passado em Viena no final da Primeira Guerra Mundial. Principalmente enriquecido pela exuberância estética expressionista que catapulta para o espectador, o filme tenta mostrar o deprimente sentimento austríaco no pós-guerra.
“Os austríacos sentiam-se humilhados”. Assim descreveu o realizador ao C7nema o seu filme. “Especialmente a minha geração conviveu mais com o tema da Segunda Guerra Mundial, devido ao Holocausto, o nacional socialismo e o facto de muitos dos perpetradores estarem ainda vivos. Por isso, a Primeira Guerra Mundial nunca foi tão estudada e seguida pelos austríacos. Para mim foi um período muito mais interessante que a Segunda Guerra Mundial, até por todos os movimentos políticos e artísticos do início desse século, como o dadaísmo, o surrealismo e expressionismo. As pessoas sentiam que vinha aí uma nova era e com ela um novo conjunto de valores. Para os norte-americanos, por exemplo, estes tempos não são vistos como muito importantes, mas para nós europeus a revolução que levou à URSS, a abolição da monarquia em vários países, e o grande avanço dos movimentos feministas, entre outras coisas, mostram o quão interessantes foram esses tempos”.

No centro de “Hinterland” está Peter Perg (Murathan Muslu), um ex-detetive que retorna a Viena após sete anos como prisioneiro de guerra russo. No seu território, já não existe mais um imperador e a capital que ele encontra está irremediavelmente estranha e sombria: “Foram tempos de extrema tensão”, explica o cineasta, acrescentando que um dos focos inerentes a esses tempos era uma latente “masculinidade tóxica”. “Para pessoas como o Peter houve um falhanço. Eles falharam a defesa da pátria, perderam as famílias , as esposas e quando regressaram nem sequer tinham emprego. Foi tudo uma enorme humilhação. O Peter (e o que o espectador vê através dele) observa o mundo como algo muito hostil. E todos têm consciência que este sentimento que estes homens carregaram levou à Segunda Guerra Mundial. Havia muito ódio, agressão e raiva, a que se acrescenta um sentimento de falhanço e incompatibilidade para com este mundo novo”.
É nessa nova realidade, nessa nova Viena e Áustria, que Peter Perg é confrontado com um assassinato macabro: o de um colega dos tempos da guerra com quem esteve enclausurado na Sibéria. É a partir dessa morte que ele regressa à investigação, sendo ajudado pela especialista forense Dr. Theresa Körner (Liv Lisa Fries). E com essa ajuda ele vai descobrir que aquela morte macabra não foi a primeira.

Filmado inteiramente com recurso ao já famoso “blue screen”, a artificialidade dos quadros expressionistas contribuem em muito para acentuar a negritude de toda a obra, como se no ar estivesse uma verdadeira moléstia sem perspetivas de cura. “Pareceu-me a melhor opção usar esses ecrãs e não locações reais. Não queria neste filme o típico realismo histórico . Pretendia a digitalização de um trabalho na linha do “Das Cabinet des Dr. Caligari”. “Nos filmes realistas é tudo muito limitado e aqui ficamos com a impressão que tudo é possível. E isto também foi um desafio. Quis experimentar algo novo.“

