Fiel à aritmética de Jason Bloom, hoje um dos mais bem-sucedidos produtores de Hollywood, “Insidious” é uma franquia que deu os seus primeiros passos com um orçamento estimado em 1,5 milhões de dólares, subindo até aos 10 milhões conforme foi ganhando continuações – cada uma mais rentável do que a outra. É uma das séries cinematográficas de maior rentabilidade hoje na seara do terror, edificada a partir da lógica de Bloom: filmes pop devem custar pouco, usarem boas ideias como chamariz, convocar um realizador de ambições autorais (James Wan abriu a saga) e atores de respeito e carisma. Patrick Wilson foi o pilar nesta saga, cujo foco está na dimensão paralela, uma espécie de limbo, que, se for acedido, garante a quem por lá passar um contacto com almas no Purgatório. Tal lugar chama-se “The Further”, o Além. De lá saem figuras com olhos que brilham no escuro, abrindo uma dentição afiada e soturna. É na cinemática, ou seja, no movimento, que esses seres são capazes de arrepiar a plateia. Truques de câmara sempre foram a base para a dinâmica dos jump scares desta saga, sem medo algum de explicitar graficamente as metonímias da Morte, sem dó de economizar no sangue. Wan fez isso de forma magnífica nos dois filmes iniciais, com uma vontade de potência que expandia os seus feitos em “Saw” (2004) e preparou o terreno para os brilhantes “The Conjuring” partes I e II, nos quais teve Wilson como estrela, ao lado de Vera Farmiga. O seu ator fetiche, Wilson, foi sendo lapidado pelo cineasta de modo a alçar o voo solo na realização, o que acontece em “The Red Door”, o quinto tomo deste franchise que já faturou cerca de 500 milhões de dólares no global. A sua posição como cineasta é promissora.
Revelado para o estrelato na minissérie “Angels in America” (2004), Wilson demonstra uma habilidade impressionante em manter diferentes planos narrativos – presente, passado, sonho e delírio – correrem paralelamente sem que o espectador se embaralhe, harmonizando as ideias do guião de Leigh Whannell e Scott Teems. Roteiro esse que praticamente reinicia o que Wan começou em 2010, renovando as personagens.
Aqui, Josh Lambert (Wilson, na perfeita composição de um representante de uma classe média apática) segue para o leste para deixar o filho, Dalton (o ótimo Ty Simpkins), na faculdade. Mas demónios reprimidos do passado voltam repentinamente, para assombrar os dois. Tais demónios são frutos da relação fraturada que Josh teve com um pai com quem pouco conviveu. Pai que se encontra preso no tal Umbral (zona fantasma) onde mora um exército de espíritos sofredores, que transformam a sua dor em instinto assassino. Dalton tem o dom de sentir as vibrações que reverberam desde The Further até o mundo dos vivos. Numa aula de Desenho com uma professora exigente, Armagam (Hiam Abbass), uma das suas ilustrações, em carvão, estabelece um vínculo com a tal dimensão assombrosa. Trata-se da ilustração de uma porta. Com a ajuda de uma colega, Chris (Sinclair Daniel, capaz de roubar para si todos os holofotes das sequências de que participa), Dalton vai explorar o limiar entre a insanidade, a lucidez e a destruição que existe no tal plano demoníaco que acede, levando Josh consigo.
Tal jornada é narrada por Wilson com pleno domínio das cartilhas dos sustos, numa economia quase franciscana do uso de música, o que dá uma secura ao filme. Diálogos de pai e filho sobre fracasso e superação são assinados por ele com secura, valorizando as palavras sem a necessidade de quebrar o tónus de drama para incluir o horror em trechos da narrativa no qual ele é desnecessário. A edição frenética ajuda esse ritmo a se equilibrar, com a ajuda de uma fotografia cheia de chiaroscuros modulada pela talentosa Autumn Eakin (de “RBG”).
O que mais adensa a produção é a esperta analogia que se estabelece entre “The Further” e a zona de ressaca que a América sentiu com as falências da crise econômica de 2008. “The Red Door” abre-se para um passado recente em que o gosto de fracasso amargo à boca dos Estados Unidos. Isso é sugerido na maneira como as neuroses familiares das personagens se apresentam, sem a necessidade de diálogos explicativos. É um guião surpreendente, que dá a Wilson a chance de se estabelecer como um realizador de espantar.




















