Difícil explicar e ainda mais entender o que Joe Wright – realizador de “Orgulho e Preconceito” e “Hanna” – tentou fazer neste “A Mulher à Janela”, thriller psicológico de contornos hitchcockianos sobre uma agorafóbica (Amy Adams) perdida entre alucinações e a realidade que afirma a pés juntos que viu o seu vizinho da frente (Gary Oldman) assassinar a esposa (Julian Moore), enquanto a polícia desvaloriza o testemunho.

Com uma forte camada teatral embutida, até porque toda a ação passa-se num único local (a casa da protagonista), Joe Wright implementa uma carga visual exagerada que apenas e só destaca a plasticidade de todo um conceito já de si nada original. Ao fazer isso, ele falha profundamente na tentativa de transmitir qualquer sentimento de claustrofobia para o espectador, quer através do confinamento físico e mental, como por exemplo mostravam “Na Sombra do Medo”, com Naomi Watts como uma escritora também enclausurada, ou “Copycat”, onde Sigourney Weaver era uma agorafóbica a ter de lidar com um serial killer que imita outros.

Além desse peso visual, que até consegue um momento interessante (a cena do carro na neve e transição para a sala da protagonista), mas globalmente arruína a atmosfera, esta pobre variação de “Janela Indiscreta” perde-se ainda num estranho vortex de atuações entre o exagero e a displicência, tudo perante personagens frágeis, integradas num guião profundamente ineficaz na construção de qualquer tensão.

Amy Adams tem, aliás, de rever as suas mais recentes atuações, pois apesar de ter muita qualidade, já demonstrada no cinema e na TV, anda a assumir papéis – como este e o de “Hillbilly Elegy” – onde o mais, o cair no exagero, faz ruir consecutivamente as suas personagens, ajudando a transportar os seus filmes para níveis bem mediocres.

Já Gary Oldman, antagonista por aqui, entrega-se ferozmente à banalidade, deixando a sua personagem vazia e apenas dependente do seu status e star power. E depois temos Julianne Moore e Jennifer Jason Leigh completamente desaproveitadas, arrematando o filme como um dos primeiros candidatos aos Razzies 2022.


*AJ Finn é um pseudónimo de Dan Mallory, o qual o The New Yorker descobriu que fabricou vários aspectos da sua vida e carreira para construção do currículo, incluindo ter obtido um doutoramento em Oxford, ter perdido a mãe para o cancro e um irmão para o suicídio.

Mallory posteriormente admitiu que a sua mãe havia sobrevivido ao cancro e que seu irmão também estava vivo, atribuído o seu comportamento enganoso ao diagnóstico de transtorno bipolar II. No artigo da New Yorker, um psiquiatra observou que “não se pode atribuir a esse diagnóstico delírios, amnésia ou ‘mentira crónica’ para ganhos secundários ou para obter atenção‘”.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
a-mulher-a-janela-pastiche-hitchcockiano-nao-tem-ponta-por-onde-se-lhe-pegueEsta pobre variação de “Janela Indiscreta” perde-se num estranho vortex de atuações entre o exagero e a displicência, e uma carga visual que arruína qualquer tensão e claustrofobia