Aplaudido em Roterdão, no início do ano, num desempenho farpado a fúria, em “Carro-Rei”, Matheus Nachtergaele é um dos atores brasileiros que mais potencializaram telas mundiais nas últimas duas décadas. E fê-lo tanto pela participação comovida por fraternidade em “Central do Brasil” (Urso de Ouro de 1998); tanto como um bandido aferrado ao seu território em “Cidade de Deus” (2002); tanto roubando cenas em “Zama” (2017) de Lucrecia Martel.
Em 2008, Cannes foi às ruínas da Amazónia, puxado pelas mãos dele,na sua estreia na realização com “A Festa da Menina Morta”. De Matheus, já vimos tripas (“Quando Parei de Me Preocupar com Canalhas”), nudez de alma (“A Concepção”; “Febre do Rato”), pura perversidade (“Amarelo Manga”), favos de mel (“Tapete Vermelho”; “Big Jato”), transparência do Mal (“Piedade”; “Baixio das Bestas”); e uma apoteose, na tradição do heroísmo picaresco, em (“O Auto da Compadecida”).
Na TV, ele foi do lodo político (“Anchietanos”) à celebração da ousadia (“Zé do Caixão”), passando pelo romance de geração (no impecável “Queridos Amigos”). E no teatro, teve a paciência de Jó, erguendo muros como Woyzeck, encarando a controvérsia. É um artista plural, visceral, da dor e do quebranto (maldição), mas sempre na medida da intensidade, do existencialismo. Por isso, vê-lo num projeto com a leveza de “Cabras da Peste” – aliás, vê-lo muito bem, com plena intimidade com a narrativa, em total sintonia com o elenco – parece uma experiência libertadora, para o olhar e para o coração. Como é bom (re)ver Matheus. Como é bom ver Matheus fazendo graça, sobretudo num filme que se preocupa tanto com a excelência plástica quanto com o seu guião. A fita está na Netflix, tendo sido lançado internacionalmente com o título de “Get The Goat”.
Tão importante quanto ele – e igualmente catártico em cena – é o seu parceiro Edmilson Filho, um ás das artes marciais que revela um ator tamanho XL em plots cómicos, depurando uma persona cómica potente, desde a sua consagração popular em “Cine Holliúdy” (2013). Os seus dotes para lutas já seriam fascinantes o suficiente, numa longa-metragem que se desenha a partir de um diálogo com as convenções do cinema de ação. Para o Brasil – que, por cargas de culpa sociológica, abortou o investimento em fórmulas pop de género – uma produção que faz de socos e pontapés um dos seus chamarizes é uma ave rara. Mais raro ainda, por lá, é haver um Van Damme que se esgrime com o texto, com o improviso, com o diálogo maroto com tanta habilidade quanto bate e esquiva. Em “Cabras da Peste”, Edmilson é a medida de um heroísmo que parece pretérito, perfeito em sua crença absoluta no autossacrifício em prol do outro. É um Jackie Chan ocidental, nordestino, que amplia o seu vigor interpretativo num duo com um colega de ferramental cénico tão vasto quanto o de Matheus.
Só a combinação deles num arranjo que lembra Jack Lemmon e Walter Matthau em “The Odd Couple” (“Mal por mal… antes com elas” / “O Estranho Casalbr”) já seria suficiente para valer uma visita a “Cabras da Peste”. Mas existe algo mais, igualmente atraente, na sua conceção artística, guiada pelo produtor Halder Gomes (o Steven Spielberg do Ceará, responsável pelo supracitado “Cine Holliúdy” e por “O Shaolin do Sertão”) e pela produtora Mayra Lucas (de “Loucas Pra Casar” e “Yansan”). Esse algo mais é o capricho visual da fotografia de Rafael Martinelli, no uso (nunca saturado) de cores e numa aeróbica de enquadramentos que sublinha o sentimento dos protagonistas. Esse sentimento é o comboio que impulsiona o filme por trilhos da tensão e da gargalhada – ambos em igual medida.
“Cabras da Peste” é um “buddy cop movie”: o jargão remonta a um formato esboçado no fim dos anos 1970, com “A Super Patrulha” (“I due superpiedi quasi piatti” / “Dois Tiras Fora de Ordembr”, 1977) e cristalizado com “Arma Mortífera” (“Lethal Weapon” / “Máquina Mortíferabr”), em 1987. É um hibridismo de riso e adrenalina, sempre a mostrar uma dupla de policias de comportamentos distintos. Numa sinergia com Nachtergaele e Edmilson, a rrealização de Vitor Brandt (das curtas “Bicho” e “Romance .38”) impressiona pelo domínio pleno dessa tradição, evocando jóias como “Sócios” (“Partners / “Dois Tiras Meio Suspeitosbr”, 1982), com John Hurt e Ryan O’Neal, e “Os Dois Super-Polícias em Miami” (“Dois Super-Tiras Em Miamibr” / “Miami Supercops”, 1985), com Bud Spencer e Terence Hill. A fotografia de Martinelli colora contradições do ensolarado universo do Ceará do Spencer encarnado por Edmilson e da plúmbea São Paulo de um Terence de múltiplos tiques vivido por Natchergaele.
Edmilson é Bruceuilis, que sai do Ceará atrás de uma cabra que é património da prefeitura da sua cidadezinha pacata. Um traficante leva o bicho por acidente, no seu camião cheio de cocaína (escondida em barras de rapadura, doce derivado de cana). E o ginete cearense, intrépido, vai atrás dela em São Paulo. Lá, ele dá de caras com Trindade (papel que Nachtergaele puxa, estica, solta e enrola), um policia mais habituado à pasmaceira do seu gabinete do que ao cheiro de pólvora. Este acaba de vacilar numa operação comandada pela valquíria (de cavalgada feroz) Priscila (a ótima Letícia Lima, impecável ao delinear tipos áridos). Por seu erro, um parceiro de farda (Juliano Cazarré, de “Boi Neon”) é morto. Trindade não se culpa, pois a sua autoestima do tamanho de uma uva passa murcha não permite nem a comiseração com a dor alheia. Mas Priscila encarrega-se de acusa-lo. A chegada de Bruceuilis vai empurrar esse touro Ferdinando para uma arena perigosa, onde o seu medo viceja. Mas a atitude resiliente de Bruceuilis, de transformar uma investigação numa alegria ininterrupta, obriga o covarde a se emancipar na caça a um político corrupto, interpretado pelo cantor Falcão. E essa perseguição desenha-se sob uma banda-sonora sonora que inclui uma versão brasileira de “The Heat Is On”, cantada por Glenn Frey em “Beverly Hills Cop” (“O Caça-Policias“; “Um Tira da Pesadabr”, 1984): “Calor do Cão”, entoada por Gaby Amarantos. Aliás, é uma versão digna de Oscar, pela inteligência na transposição do Inglês ao Cearencês.
Amparado na química entre Edmilson e Nachtergaele, Brandt consegue usar todo o cabedal que tem sobre “buddy cops” para esmiuçar as inquietações dos seus dois heróis, galvanizando os risos com a participação (mais do que especial) da motorista de Uber Josimara (Evelyn Castro, uma força da natureza na construção de piadas). Como a sua câmara não se conforma só em ouvir e registar os disparates cuspidos pelas personagens, movendo-se sinuosamente para captar os incómodos de Trindade e as reações espatafúrdias de Bruceuilis, o filme ganha mais musculatura e impõe-se como um espetáculo cinemático. Espetáculo capaz de conversar ainda com o passado da chamada “chanchada”. Assim se chama a linhagem comercialmente mais bem-sucedida da produção cinematográfica brasileira, realizada entre 1934 e 1962, no qual crónicas quotidianas assimilavam elementos de géneros como o musical (“Rico Ri à Toa”), o western (“Matar ou Correr”) e o thriller de espionagem (“O Homem do Sputnik”), construindo uma mistura divertida, que vendia milhões de bilhetes, filme a filme.
Hoje, em tempos pandémicos, não há bilhetes a vender – ou quase não há -, mas existem cliques a serem contabilizados na streaminguesfera. E a Netflix ganha, com uma pérola como “Cabras da Peste”, não só audiências (e assinantes), como ganha uma faixa preta em brasilidade. Tudo o que precisamos nestes tempos onde nos falta ar.















