Curiosa a confrontação que “I Care a Lot” (Tudo Pelo Vosso Bem) coloca em cena: de um lado Marla Grayson (Rosamund Pike), uma neoliberal alimentada pelo sonho americano que jura que triunfará a qualquer preço; do outro, um mafioso russo (Peter Dinklage), produto oligarca da velha guarda que mais parece um sonho molhado czarista, mas com a capacidade de adaptação para garantir a sua sobrevivência. Seja qual for o peso da balança, temos mais que uma nova Guerra Fria nas nossas telas.

Depois de andar um pouco perdida em produções que silenciaram o seu estrondo no protagonismo em “Gone Girl- Em Parte Incerta”, Pike regressa à boa forma e assume-se aqui como uma leoa (podia também ser um “Tigre Branco”) à espera de devorar cordeiros num sistema económico que propicia, cada vez com mais vigor, a visão darwinista da “sobrevivência dos mais aptos”. Ao seu lado está Fran (Eiza González), parceira de negócios e de vida, tão implacável como ela nos negócios.

Numa economia aberta como os EUA, onde tudo é negócio (saúde, educação, armas, guerras, prisões, etc, etc), Marla tem como profissão ser tutora legal de idosos que perderam a capacidade de gerir as suas próprias vidas (o filme é parcialmente inspirado num episódio da série “Dirty Money” da Netflix ). Pelo menos é isso que ela diz a um juiz cheio de boas intenções, mas na verdade o que faz é aplicar verdadeiros golpes, selecionando presas e fazendo crer – com ajuda de uma médica e o dono de um lar – que esses idosos já não conseguem viver sem a sua guarda. O problema é que num dos seus esquemas, encontra Jennifer (Dianne Wiest), uma mulher com posses, mas sem qualquer registo de familiares. Uma aparente “cereja” no topo do bolo, mas que na verdade vai revelar-se uma verdadeira matrioska que a vai colocar em confronto com o seu filho mafioso.

Até aqui, sempre num registo de sátira cartunesca, o filme revela-se uma curiosa crítica à manipulação de um sistema que privilegia a competição e a pouca regulação que provoca as disparidades absurdas e injustiças globais, mas eventualmente, e a certo ponto, o guião e realização decidem prosseguir pela via dos lugares-comuns e excentricidades quando partem para o descascar das personagens em conflito, submetendo-as aos mais profundos clichés. A começar pelo mafioso, interpretado por Peter Dinklage, que mesmo com charme e carisma de um Tyrone Lannister (especialmente no último terço), no auge dos seus jogos de poder, revela uma impulsividade e excentricidades artificiais que o transformam num imenso lugar-comum (o tipo de papel que Ben Kingsley tem feito nos últimos anos). À sua volta, idem idem, aspas aspas: outra coleção de figurinhas de cartão, gangsters New Age marcados por vestes espampanantes, algum músculo e pouca (ou nenhuma) arte de agir, falar e resolver as coisas dentro do sistema. Em oposição a este temos a personagem de Pike, a encarnar uma nova sociopata pós “Gone Girl” que mais uma vez é toda ela cérebro, frieza, calculismo e manipulação.

O conflito dos dois blocos é apresentado por J Blakeson através de sequências de ação estilizada, privilegiando o suspense, mas que pecam um pouco pela forma rebuscada em crescendo e um sentido pouco prático de resolução com a clara intenção de estender e resolver tudo no último terço através de reviravoltas que na verdade se anteviam. Nada de muito grave, até porque bem sabemos pelo tom caricatural de tudo, que no final do dia é “business as usual”, resultando este num produto de entretenimento com um pouco mais para pensar sobre o sistema que escolhemos viver.

Mas algures em “I Care a Lot” poderia estar uma obra-prima. Ficou-se pelo meio, o que já não é mau.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
i-care-a-lot-business-as-usualSátira cartunesca sobre como triunfar num sistema que privilegia a visão darwinista da “sobrevivência dos mais aptos”