Estávamos em 2008 quando Aravind Adiga lançou o seu livro “O Tigre Branco” no mercado, uma sátira bem negra a uma Índia de onde saiu anos antes para se tornar cidadão australiano. 2008 foi também o ano do lançamento de “Slumdog Millionaire”, o filme de Danny Boyle que também viajava à cultura das castas mas com um olhar Dicksiano deveras otimista e fatalista (uma coisa chamada destino), coisa que este “O Tigre Branco” serve como antónimo tal o cinismo e populismo que incorpora na sua coluna vertebral pseudo-anticapitalista.
Ainda em 2008, a grande bolha imobiliária nos EUA estourou e a respetiva crise financeira contaminou todo o planeta. Ramin Bahrani tocou nessa crise com algum vigor no seu “99 Casas”, onde apresentava um homem que que se vê confrontado com dificuldades financeiras e que, por ironia do destino, tem como única alternativa de emprego a que é oferecida pelo agente imobiliário que despejou a sua família na rua. Esta figura do agente, interpretado por Michael Shannon, revelava em todo o seu esplendor algo que a mítica personagem Gordon Gekko de “Wall Street” já fazia, e que neste “O Tigre Branco” ganha novo corpo na forma da personagem de Balram Halwai, um servo que torna-se mestre através da corrupção ética e moral.
Tudo é apresentado num jeito energético não diferente ao que Martin Scorsese aplicou no seu “O Lobo de Wall Street”, mas o grande problema aqui é que se já se sentia uma mensagem simplificada e reduzida às caricaturas dos valores da cultura indiana, que no entanto se diluía eficazmente pelas doses de sátira completa incutidas na história, nesta transposição para o cinema tudo ganha uma maior dimensão através de uma visão ainda mais anglo-saxónica do discurso (também se pode comparar ao sonho americano e do seu fim), do uso da linguagem cinematográfica (planos curtos e montagem rápida), e até nas escolhas musicais, sendo as duas músicas de destaque no filme “Mundian To Bach Ke”, do britânico-indiano Panjabi MC, e “Get it Poppin” de Fat Joe feat.Nelly.
´É que Bahrani, norte-americano de ascendência persa, em prol do entretenimento algorítmico de maior sentido universal (é um filme Netflix, pois claro), assume uma postura dramática em mais um exercício de luta de classes onde a sátira é apenas uma arma para sustentar uma rebelião “justificável” após uma simplória e populista sequência de eventos e personagens, onde apenas escapa a interpretada por Priyanka Chopra, claramente fora do seu meio.
Na verdade, tudo nesta coisa de relações de poder, de ricos e pobres, servos e mestres, é reduzido à metáfora de um galinheiro, ou então – de forma ainda mais binária – à luz e às trevas. “A única maneira de um pobre enriquecer é através do crime ou da política”, é dito a certo momento, resumindo tudo através de uma frase banal que qualquer taxista nos diz numa viagem corriqueira.
Pois bem, o termo taxista não é aqui usado com qualquer desprimor, até porque o nosso Balram, que ambicionava ser rico e se sente um “special one”, um exemplar único numa geração (como o tigre branco), consegue-o quando se liberta das amarras servocratas através da corrupção moral, tornando-se um “empreendedor” do sector do transporte individual, um exemplar precioso da nova ordem mundial liderada pelos “amarelos e castanhos” em detrimento dos brancos em decadência.
Neste ponto, podemos também pegar em “American Psycho” de Bret Easton Ellis para olhar para este “The White Tiger” e ver a criação de um sociopata como resultado da corrupção a que o sistema capitalista obriga, já que o mundo está construído de maneira a os ricos manterem o poder e os servos a permanecerem na pobreza. Mas – mais uma vez – o problema volta a ser a forma e a total superficialidade. Onde “American Psycho” respondia nas entrelinhas, o que gerava estudo, reflexão e uma verdadeira crítica, “The White Tiger” responde com frases feitas mínimas, carregadas de populismo na análise e inertes de pensamento crítico, além do chavão de que se queres ser alguém na vida e ascender na hierarquia, tens que ser um sacana, pois o sistema assim o obriga.
Quão clichê e redutor é isto?















