Ammonite” é, em toda a sua extensão, um enorme equívoco e um verdadeiro tropeção – dos bem aparatosos – do seu realizador, Francis Lee, que ainda há bem pouco tempo nos entregou o intenso e bem conseguido “God’s Own Country“.

Ao seguir de perto a vida de Mary Anning (Kate Winslet) e o seu relacionamento proibido com uma mulher londrina mal casada (Saoirse Ronan), o filme centra toda a sua atenção na criação dessa mesma relação, desprezando em larga escala quem era Anning, uma paleontóloga, negociadora e coletora de fósseis inglesa que por ser uma dissidente (não conformista) não podia participar plenamente da comunidade científica do século XIX do Reino Unido, composta principalmente por homens anglicanos. 

Lee, talvez demasiado oprimido por forças alheias que anseiam pela temporada de prémios, tenta – em vão – criar uma espécie de “Retrato de uma Rapariga em Chamas” que de forma grosseira e superficial revela duas mulheres eternamente solitárias, e notoriamente oprimidas por uma sociedade patriarcal, que encontram nessa paixão um escape, uma chama, um sorriso para as suas vidas manifestamente infelizes.

Winslet, atriz de créditos mais que firmados,  também se equivoca ao vestir a pele de Anning, transformando-a numa caricatura de amargura constante, desconfiança e pragmatismo, enclausurada em si mesmo após o fracasso de uma relação anterior (uma subutilizada Fiona Shaw), isto enquanto galgueia pela praia, dunas e rochedos à procura de pedras e fósseis que se tornaram uma obsessão. Ronan, cada vez mais agarrada a peças de época onde a condição de ser mulher marca profundamente o seu destino, entrega igualmente uma prestação desinspirada, muito por culpa de um guião que só na reta final se lembra que além de ser problemática, per se, a relação entre duas mulheres, existem ainda atritos pela sua diferente condição social (questões de classe) e até ideologias (a tal dissidência de Mary).

O que é curioso em tudo isto é que “Ammonite” até gerou controvérsia antes de ser exibido. A família de Mary Anning não estava satisfeita com a obra pelo simples facto de não existirem provas de uma alegada relação lésbica entre as duas mulheres. “Os cineastas precisam recorrer a aspectos não confirmados da sexualidade de alguém para tornar sensacional uma história já de si notável?“, disse Barbara Anning numa entrevista ao The Tellegraph.  Lee respondeu: “Depois de ver a história Queer ser rotineiramente ‘endireitada’ através da cultura, e tendo uma figura histórica onde não há evidência de qualquer relacionamento heterossexual, não me é permitido ver essa pessoa dentro de outro contexto? (…) Particularmente uma mulher cujo trabalho e vida foram submetidos aos piores aspetos do patriarcado, discriminação de classes e desequilíbrios de género”.

E é neste contexto que o tropeção de Lee ganha ainda mais espetacularidade, não apenas porque se centra na tal alegada ligação lésbica não confirmada/provada, que é de todo irrelevante quando estamos numa peça de ficção, ainda que inspirada em factos reais, mas porque se centrou nisso e entregou ao espectador uma obra aborrecida, desritmada e com pouca química (cenas de sexo sofríveis em termos de conexão) entre as protagonistas. Além de falhar no que mostra, o cineasta fracassa ainda no que não mostra ou deixa apenas à flor da pele, nomeadamente a genialidade de Anning, a sua importância histórica no ramo da paleontologia e geologia, a sua dissidência e a submissão “aos piores aspetos do patriarcado, discriminação de classes e desequilíbrios de género”.

Uma enorme decepção.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Guilherme F. Alcobia
ammonite-o-enorme-equivoco-de-francis-lee“Ammonite” é, em toda a sua extensão, um enorme equívoco e um verdadeiro tropeção - dos bem aparatosos - do seu realizador, Francis Lee