É com um travelling por uma plantação do sul dos EUA, em plena Guerra de Secessão, que se inicia esta aventura de profundo toque à la M. Night Shyamalan assinado pela dupla Christopher Renz e Gerard Bush, que se dão a conhecer ao mundo como Bush & Renz.
A gloriosa e belíssima fotografia do uruguaio Pedro Luque contrasta com o violência das imagens que se seguem no mesmo terreno/campo onde foi filmado “Django Libertado”: uma negra que tentara momentos antes escapar é morta, outro fugitivo é acorrentado pelo pescoço, e uma terceira, a protagonista desta história (Janelle Monáe a mostrar qualidade), é marcada com um ferro em brasa depois de ser espancada com um cinto, numa cena que bem podia ter saído de “Roots” (Raizes) ou “12 anos Escravo”.
O grafismo e a violência neste “Antebellum: A Escolhida” não fica por aqui, pois nos momentos que se seguem vemos várias dinâmicas da era Antebellum, ou seja, o tempo das plantações antes da guerra civil americana que determinou no seu fim a extinção da escravatura. É curioso que sempre que há um filme sobre esta temática, a violência exposta é tratada entre a fundamentalmente necessária e a exploratória, havendo claramente uma tendência moralista (mascarada de ética) da crítica especializada e público em geral em entender que essa violência é mais justificável quando estamos perante um drama “sério”, e não num filme de género, que é o que este “Antebellum: A Escolhida” é, tal como “Django” de Tarantino o foi.
Bush & Renz, que se consideram ativistas, não embarcaram em nenhuma forma num drama histórico, filme de época, ou jeito documental, mas num filme de suspense em três atos, com os dois primeiros a apresentarem a mesma protagonista em dois períodos temporais distintos, e o terceiro a unificar os anteriores através de “um twist” que se torna previsível a partir de certo ponto. Isso porém não invalida a qualidade do conceito , que apesar de não funcionar plenamente – especialmente pela falha em ligar e dar um sentido menos óbvio a alguns simbolismos – consegue produzir uma série de imagens impactantes e discussões pós-filme sobre o racismo, e a forma de lidar com o passado, que por si só validam a sua existência.
Na verdade, “Antebellum: A Escolhida” segue a tendência que começou com “Get Out”: o de lançar uma crítica social antirracista através de uma linguagem cinematográfica implícita ao cinema de género, em particular alinhada com os códigos do cinema horror, onde já este ano o curioso “The Hunt”, da “família” Blumhouse, tinha mostrado as suas garras.















