Dificilmente vão encontrar atualmente um filme mais “politicamente incorreto” na esfera da política norte-americana que este The Hunt, projecto da Blumhouse de Jason Blum que coloca 12 rednecks/hillbilies a serem caçados por uma elite liberal por diversão e vingança.

Sátira profunda à esquadria de dois universos norte-americanos, historicamente separados pelo velho Norte e Sul, estados vermelhos e azuis, republicanos e democratas, The Hunt é um poço de imprevisibilidade desde os primeiros momentos, quando um grupo de pessoas acorda em terra de ninguém e é confrontada com uma caixa de onde sai um porco (referência a O Triunfo dos Porcos, como veremos mais tarde) e uma mão cheia de armas ao seu dispor.

A partir daqui começa a caçada, sendo invariável vir à cabeça Battle Royale, mas durante muitos minutos somos órfãos de um verdadeiro protagonista ou candidato a herói já que o filme parece querer esbofetear sem fim quem procura logo no início a forma clássica do cinema de Hollywood em definir heróis.

Com ação bem orquestrada, ainda que extremamente espampanante, e um verdadeiro bloco de tensão, The Hunt nunca se leva a sério, não só pela violência exacerbada que sai dos limites do realismo, mas igualmente porque na mais ínfima situação procura entregar um pedaço de humor macabro, quase sempre a roçar o mau gosto.

E se muitos se afastarão deste produto pela gratuitidade dessa violência e irrealidade de tudo o que está a acontecer, a verdade é que o guião de Nick Cuse e Damon Lindelof transborda de ironia e surrealidade, esbanjando carisma num produto que dificilmente se vê na indústria do cinema atual. É que estamos perante aquilo que Donald Trump apelidou de “lixo”, o principal responsável, segundo o presidente norte-americano, juntamente com os videojogos,  pelos tiroteios sistemáticos que ocorrem em liceus americanos.

E um belo exemplo da bizarria narrativa – do tal “foram longe demais” – é o momento em que a nossa elite discute sobre a caçada, com tiradas de humor onde não faltam tópicos como o racismo, a apropriação cultural, a diversidade e a homofobia, não faltando ainda no último terço uma mensagem à atual cultura que destroi empregos, tão ligada às redes sociais no pós #MeToo e #Time’sUp, por esta ou aquela mensagem publicada há anos atrás.

Por aqui neste The Hunt, tudo é disparatado, exagerado e nada subtil em termos alegóricos, sendo claramente essa a intenção dos responsáveis pelo filme: o de criar algo tão “over the top” que torna este no mais caricato e arrojado filme do ano na sua absoluta insensatez.

No fundo, The Hunt é aquela piada de mau gosto que todos rimos de dentes cerrados.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-hunt-uma-piada-grotesca-sobre-rednecks-e-liberaisTudo é disparatado, exagerado e nada subtil em termos alegóricos, sendo claramente essa a intenção dos responsáveis pelo filme: o de criar algo tão "over the top" que torna este no mais caricato e arrojado filme do ano na sua absoluta insensatez.