
Nenhuma série infanto-juvenil é tão amada nos Estados Unidos da América como Peanuts. Com 65 anos de idade, Charlie Brown, Snoopy, Woodstock e companhia terão com certeza tantas legiões de fãs como a Marvel ou DC Comics, mas nenhuma chega a ser tão hilariante. E porque o digital potencializa adaptação aqui, adaptação acolá, esta série não seria a exceção e coloca a animação computadorizada em 3D aliada aos desenhos a lápis de Charles Schulz, seu criador.
Como habitual, o filme parte das trapalhadas de Charlie Brown, uma criança com muito azar ou, se assim o entendermos, com demasiado mau-olhado. Tudo começa com um novo ano letivo, a saber o mesmo de sempre, que nos (re)apresenta os colegas e amigos do miúdo mais idiota do mundo do entretenimento. Tanto Lucy (a menina que tenta ser perfeita), como Schroeder (o pianista), ou Pigpen (que nunca toma banho) ou ainda Linus (o dorminhoco) surgem com o mesmo espírito de amizade da banda-desenhada ou da série televisiva, que as primeiras sequências são imediatas em criar. Favoravelmente colocam o espectador frente a frente com a sua infância, concebendo a oportunidade aos pais de mostrarem aos seus filhos, cada vez mais envoltos nas tecnologias, produto um quanto humilde da sua infância. Claro que não estamos diante nenhum Toy Story, porque o registo não é novo, mas estamos diante um daqueles encontros cinematográficos que pressupõe a existência de clichés só porque de outro modo não poderiam ser fiéis à história.
As cenas com o beagle, um quanto diferente do contexto dito ‘normal’, mostram bem porque é uma lenda desse registo, principalmente quando quer ir para a escola ou escrever um livro, dando provas da sua criatividade. Nessa história cria um romance entre um aviador (ele próprio) com Fifi (a cadela por quem se apaixona), mas antes sem derrotar o Barão Vermelho, o ás da aviação durante a Primeira Guerra Mundial, que relembra um dos filmes mudos mais importantes da história do cinema, Wings (1927), com Clara Bow e Gary Cooper. É esse interesse na capacidade de ligar a outros filmes com uma tentativa bem sucedida de captar à atenção, que Snoopy & Charlie Brown subsiste. Primeiro revela algumas influências Disney/ Pixar, para posteriormente denunciar que existe animação longe da dominante.
Uma outra cena fundamental é a ausência da voz adulta que nunca aparece, como a série também comprova. Quer mostrar como somos, em adultos, um quanto robóticos sem aquela ingenuidade infantil. Pode ser verdade que o lápis de Schultz já não pinta, mas também não é preciso, já existem pixéis para conceber o seu trabalho.
O melhor: O mesmo estilo cómico da série ou da banda-desenhada
O pior: Aos poucos sabemos como termina…

Virgílio Jesus

