«O Agente da U.N.C.L.E» por Paulo Portugal

(Fotos: Divulgação)

Parece que chegou aquela altura do verão em que as distribuidoras apostam em produto cada vez mais maduro, dando assim um alívio à “silly movie season” dos blockbusters a destilar bits e bytes de efeitos visuais sem pinga de empatia. Talvez por isso damos ainda mais aplausos a esta ousadia de Guy Ritchie por mostrar que não ficou preso num modo de produção acético que poderia suceder ao díptico sobre Sherlock Holmes.

Em O Agente da U.N.C.L.E. temos um novo filme de espionagem baseado na série de televisão americana exibida entre 1964 e 1968, mas o que se passa na tela é um jogo de atrações desinteressadas, de uma investigação feita de diferentes egos e humores.

Quando o agente americano da CIA, Napoleon Solo, se cruza com o agente russo da KGB, Illya Kuryakin, as coisas podem aquecer. Sobretudo se Gaby estiver por perto, sobretudo quando se souber que ela também é agente. E das boas. É claro que falamos de Henry Cavill, o eterno Super-Man, Armie Hammer e sobretudo o rebuçadinho chamado Alicia Vikander. Um trio forçado a colaborar e permanentemente a medir-se com um fino desfile de humor, sem pressas, mas sempre com muita elegância. A sua câmara continua espevitada, sinuosa sem ser decadente, mesmo quando nos leva à Berlim dos anos 60, dividida por uma Guerra Fria ou à sociedade decadente romana; ou quando existe uma trama envolvendo um engenho nuclear disputado por uma dama milionária (Elizabeth Debicki); mas também quando temos o britânico Hugh Grant a roubar as poucas cenas em que entra. Fica a guardar-se para a esperada sequela, para dar mais espessura de Waverly, uma espécie de réplica de M para 007. Estão lá ainda elementos seguros, como Jarred Harris, o James Moriarty de Sherlock Holmes ou Lane Pryce de Mad Men, aqui a dar corpo a Sanders, o manda-chuva.

Apesar de O Agente da U.N.C.L.E. ser tudo menos um filme independente, poderá até ser visto como uma variante luxuosa de estúdio ao que fizera no debute da sua carreira britânica, com os infames Lock Stock and Two Smoking Barrels, Snatch e até RockandRolla. E devidamente inflamado por uma poderosíssima banda sonora dos “sixties”.

O melhor – A alegria de verificar que a adaptação de mais uma série de espionagem não significa mas que prefere não se levar muito a sério

O pior – Sente-se, por vezes, uma certa falta de ritmo.

Paulo Portugal

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