«Nebraska» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

 

O cinema realista indie continua a produzir aquilo que interessa no cinema norte-americano e, nesta via, Alexander Payne é um dos seus grandes mestres. Depois de As Confissões de Schmidt e Sideways (“Os Descendentes” e a sua mensagem obtusa são mais interessantes para os fãs de George Clooney) o cineasta volta a acertar com esta epopeia emocionante sobre uma relação entre pai e filho.

O ponto de partida não parece muito promissor: um velhote (Bruce Dern) cuja mente está situada algures entre a razão e a senilidade, acredita que ganhou um prémio e ficou milionário. Para ir busca-lo, tem de ir até Lincoln, Nebraska, tarefa a que se propõe com inusitada obstinação. Depois de qualquer tentativa de lhe incutir algum juízo falham, seu filho David (Will Forte) resolve acompanhá-lo.

Nesta odisseia de pai e filho atravessam o seu caminho personagens dos mais diferentes matizes, enquanto a fotografia a preto-e-branco evoca um clima tão nostálgico quanto de abandono do interior dos Estados Unidos. Aqui sobressaem-se uma das marcas mais reconhecíveis deste naturalismo, onde circulam figuras que destilam inércia, ganância, letargia e até violência mas que são, sobretudo, repletas da mais identificável humanidade.

Neste universo despido de twists, efeitos dramáticos forçados, soluções milagrosas e glamour (note-se o vestuário e o próprio físico de alguns personagens), vem ao de cima aquela que é uma das questões recorrentes de Payne, o grande imbróglio pós-moderno, marcado por um forte sentido de vazio existencial. Nenhum estágio da vida humana se presta tanto para a abordagem do que a velhice, aparentemente desprovida de sentido em si própria, e que foi o tema principal de As Confissões de Schmidt.

No saldo final, esta conjunção de pequenos dramas, enquadradas por subtis considerações filosóficas e onde as nuanças trágicas são contrabalançadas por um enorme sentido de humor (especialmente nas cenas com June Squibb) gera uma obra que, na sua aparente simplicidade, contém tudo o que o cinema tem de melhor a oferecer. Nebraska é daqueles filmes que parecem pequenos mas que são enormes.

O Melhor: a poesia do quotidiano parece uma fonte inesgotável de grandes filmes

O Pior: algumas reações previsíveis dos personagens

Roni Nunes

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