O escritor australiano Markus Zusak, descendente de sobreviventes dos campos nazis, encontrou no livro que serviu de base para este filme dois simbolismos inventivos para revisitar o tema da barbárie nazi. De um lado, nada melhor do que a própria Morte para contar uma das pequenas peripécias da macro história do episódio mais catastrófico do género humano; de outro, torna o livro e as palavras, numa época de insanidade generalizada onde eles eram queimados em praça pública, no centro do enredo.
A ladra de livros do título é Liesel (Sophie Nélisse), entregue a uma família de acolhimento no auge das perseguições aos comunistas no período imediatamente anterior à deflagração da guerra. Entre a rispidez da nova mãe (Emily Watson), a sintonia afetiva com o pai (Geoffrey Rush) e a amizade com o seu falante admirador Rudy (Nico Liersch), ela vai presenciando as cada vez mais duras consequências de um conflito que não entende. O drama é acrescido com a chegada de um judeu que eles terão de esconder, Max (Ben Schnetzer).
O background do realizador Brian Percival, cuja experiência vem quase toda da televisão, talvez tenha sido um fator decisivo na hora em que o filme necessitava de outra envergadura na perspetiva para alcançar voos mais altos – especialmente onde, lá pelo meio, os diálogos sofrem de uma indigência crónica. Para além disto, resulta numa grande salganhada a mistura de alemão com inglês com sotaque alemão – algo cada vez menos palatável para o público de hoje. Convém salientar, no entanto, que não será fácil, no caso dos grandes projetos internacionais, que os produtores sigam o exemplo de Tarantino em Sacanas sem Lei (que escolheu nativos ou fluentes em alemão) – pela simples razão de que os atores mais mediáticos são de língua inglesa.
Mesmo assim, trata-se de uma adaptação correta de um livro difícil, que utilizava de uma narrativa fragmentada e cheia de artifícios de difícil transposição visual. O resultado final é aceitável e com alguns belos momentos, como a sequência onde o menino Rudy lança-se num rio gelado para salvar um livro. Além disto, consegue evitar na maior parte do tempo cair no sentimentalismo fácil – algo que o material de origem até propiciaria. Não será muito certamente o melhor filme sobre o período, mas nunca será demais relembrar as consequências de uma história ainda bem viva – como demonstra o facto dos franceses, há apenas alguns meses, votarem em neonazis para o Parlamento Europeu.
O Melhor: adaptação correta e aceitável, sem cair no melodrama fácil
O Pior: não alcança uma perspetiva maior e o resultado global é limitado

Roni Nunes

