«Dallas Buyers Club» (O Clube de Dallas) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

A temporada dos Oscars é sempre de se aproveitar pois corresponde àqueles dois meses onde a indústria de Hollywood não lança filmes de super-heróis e esmera-se para apresentar algo de qualidade. Nem sempre consegue, mas isso já é outra conversa… Sem presença garantida na lista de Melhor Filme (ao contrário dos papéis masculinos), este Clube de Dallas será, eventualmente, o melhor da remessa – até porque, além de divertido e inteligente, escapa àquele pretensiosismo de seriedade politicamente correta dos principais concorrentes.

Uma das razões é o tratamento visceral dado pelo realizador Jean-Marc Vallée a um argumento pouco ortodoxo da dupla Craig Borten e Melisa Wallack. Esta é a história de Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um verdadeiro bandalho, sexista, racista e profundamente homofóbico que é apresentado ao espetador através de uma cena de sexo nos bastidores de um rodeio enquanto um touro faz as suas peripécias na arena. Mas a sua vida de texano bronco permaneceria intacta na sua inflexível obtusidade não fosse um terrível azar do destino: é lhe diagnosticado a presença do HIV no sangue, que na altura (anos 80) era o sinónimo de uma “doença de gays”.

Se este conflito básico já serviria de combustível para um filme no mínimo interessante, o imbróglio aumenta na medida que é acrescentada uma maneira peculiar do protagonista lidar com o fatalismo intrínseco à sua condição: tornar-se não só um verdadeiro homem de negócios como empreender uma catártica cruzada contra a indústria farmacêutica – mais precisamente com a fabricante de AZT.

Nenhuma gestão seria viável, no entanto, sem as presenças inspiradas dos seus atores principais, onde um esquelético McConaughey arranca uma prestação memorável – para além do ator em part-time Jared Leto (aqui como um travesti que torna-se uma espécie de “assistente” de Woodroof) assegurar mais uma performance marcante numa carreira mais interessante do que a maioria dos seus pares a tempo inteiro. Edições sonora e visual de alto nível são também dignas de nota.

Depois de chegar tão longe, chega a hora de fazer às pazes com o sistema, algo reservado para uma simples frase imediatamente antes dos créditos finais – onde o filme deixa sem resolução uma das questões mais sugestivas que levanta: afinal, havia (ou há) um tratamento alternativo para a Sida?

Roni Nunes

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