Há um peculiar fetichismo pelo loser, esse conceito tão próprio de uma terra onde impera a cultura do vencedor, que perpassa toda a obra dos irmãos Coen. E dentro da filmografia deles há pelo menos um trabalho, O Barbeiro (“The Man Who Wasn’t There“, no original), em que ele deixa de ser um dos seus temas acessórios para ganhar o protagonismo – ressurgindo aqui numa espécie de remake temático. Nesta obra de 2001 eles açambarcavam sem grandes cerimónias a mais terrível lei de Murphy: “se algo pode dar errado, dará“.
Quem se lembra das agruras da personagem de Billy Bob Thornton certamente se verá confrontado com elas novamente, embora neste “A Propósito de Llewyn Davis” eles transformem-nas num rebuçado muito mais saboroso e onde só depois de o mastigar percebe-se o quanto é amargo. Llewin Davis (Oscar Isaac, em grande forma) é um cantor/compositor folk do início dos anos 60 (portanto, antes da explosão do género e que encontra no final deste filme uma deliciosa referência) que tenta de todas as formas se manter fiel aos seus princípios e sustentar uma carreira na música, independentemente das dificuldades.
Mas os tempos do Romantismo na arte já lá vão e os Coen estão pouco interessados em mostrar Davis com um anti-herói, um poeta maldito e incompreendido – e muito menos com uma humildade redentora como a do fabuloso protagonista de À Procura de Sugar Man. Bem antes disso, ele surge como uma figura trágica, patética, bizarra, que simplesmente consegue a façanha de errar em TODAS as escolhas que faz.
Apesar de ser uma obra movida por este estranho fetichismo pelo perdedor, trata-se de um filme muito agradável de se acompanhar, onde os caminhos de Davis vão se cruzando com os tipos carregados do mais característico humor subtil dos Coen, como o soldado-cantor Troy Nelson (Stark Sands), o partner de Davis num dueto, Al Cody (Adam Driver), o fleumático motorista Johnny Five (Garrett Hedlund) e o seu insuportável patrão Roland Turner (John Goodman). E com boa música folk a emoldurar tudo.
O Melhor: no todo é um filme muito agradável de se seguir
O Pior: um final previsível para um conhecedor da obra dos Coen

Roni Nunes

