Um grande pensamento bailava na minha cabeça no minuto em que li pela primeira vez que iriam fazer uma continuação dos encontros de Jesse e Celine: “Porquê?? Porquê estragar algo tão… perfeito?“. Após assistir a Antes da Meia-Noite, percebi eu e perceberam muitos outros espectadores a oportunidade magnífica que passou pela cabeça do realizador e argumentista Richard Linklater, e pelos atores e co-argumentistas Ethan Hawke e Julie Delpy (*vénia* a todos eles), concretizada aqui a 100%.
Parecendo já quase uma tradição cinematográfica, voltamos a encontrar Jesse e Celine nove anos após os eventos de Antes do Anoitecer (que por sua vez, relembremos, celebrava nove anos desde Antes do Amanhecer…). A realidade tomou conta das personagens, já não tanto oníricas ou românticas como naqueles encontros fugazes, parecendo menos memórias e mais um casal próximo de nós.
Uma decisão do protagonista teve efeitos avassaladores na sua vida. O casal cresceu, e nós crescemos com eles. O facto de os eventos da história decorrerem com a mesma velocidade que o intervalo dos filmes e de a história decorrer da forma mais fluída possível, como se estivéssemos mesmo com aquelas personagens, sem grandes cortes, sempre beneficiou esta saga, e este terceiro capítulo será apresentado como a prova derradeira disso. Aqui encontramos mais uma vez diálogos magníficos, cenas que duram um quarto de hora e que passam num ápice (e consequentemente todo o filme passa num ápice!), e, mesmo tendo aqui uma expansão a um leque de secundários, um foco humanista sempre forte em qualquer frase, em qualquer gesto simples, na câmara ou nos atores. De facto, esta crueldade de transformar um “casal fantasia” num “casal real”, com todos os problemas tipicamente relacionados, e onde o falatório filosófico existencial reminiscente dos primeiros filmes se vai aos poucos convertendo numa discussão desconcertante com um desenlace igualmente desconcertante de tão perfeito e.. real, foi o caminho mais que correto a seguir ao romantismo imensurável que precedia.
Podia espalhar aqui mais adjetivos e hipérboles, como dizer que os dois filmes anteriores parecem agora preparativos estudados e elaborados ao pormenor para servirem de portas de entrada para a profundidade emocional que encontramos à terceira vez – como se Linklater e companhia pudessem de facto ter isto tudo estudado desde 1994, tal é a perfeição do encaixe de todas as peças. No fim do dia, e já depois da meia-noite, a sensação ao sair da sala de cinema é de pura devastação, e maravilhamento. Aparente contradição, mas tal é a magia da vida, e a verdade do “amor”, raramente transposta tão bem para a tela, como nesta saga.
O melhor: Os diálogos, os atores, os planos, os pequenos pormenores…
O pior: As luzes acenderem-se e não sabermos se vamos voltar a ver alguma vez mais estas pessoas.

André Gonçalves

