‘The Proposition’ por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Neste drama de época australiano, a consciência compete com a lealdade e o amor origina vingança. Três irmãos lutam pelo seu lugar no seio de uma paisagem inóspita. Passado em 1880, o filme começa com um tiroteio entre a polícia e um bando de forasteiros. Charlie Burns e o seu irmão, Mikey são capturados pelo capitão Stanley. Juntamente com o seu irmão Arthur são procurados por terem cometido um crime brutal. È aqui que Stanley faz a Charlie uma peculiar proposta.

Elenco

Tom Budge, Guy Pearce, Emily Watson, John Hurt, Ray Winstone

Realizado por John Hillcoat

Crítica

Quem conhece a obra musical de Nick Cave sentir-se-á em terreno seguro ao assistir a ‘The Proposition’, um espécie de western gótico que não deixa ninguém indiferente. E digo isto porque muitos dos seus trabalhos musicais seguem personagens (muitas vezes) bizarras que compõem pequenas narrativas tremendamente poéticas e vívidas, explodindo quando menos se espera, e deixando o espectador siderado com isso mesmo.

Passado no final do século XIX numa Austrália sem lei, e onde encontramos muitos dos elementos dos Westerns americanos (a última fronteira, os fora da lei, os indígenas, uma nação construída de um conflito, os caçadores de prémios), ‘The Proposition’ começa com a detenção por parte das autoridade de dois de três irmãos há muito procurados pelas autoridades, e que têm de responder perante a lei por crimes como o roubo, o assassinato e o estupro.

Porém, e ao contrario do que muitos desejariam, o responsável pela detenção decide fazer uma proposta a um dos dois homens, neste caso a Charlie Burns (Guy Ritchie), o mais velho dos dois detidos. Caso ele conseguida travar o seu irmão mais velho, Arthur (Danny Huston), considerado por muitos como o mais perigoso e cérebro do gangue, nada vai acontecer ao seu irmão mais novo, Mikey, que conta apenas com 14 anos. Para isso ele tem apenas 9 dias, e caso não consiga concretizar a sua tarefa, o jovem será enforcado.

Confrontado com esta situação, Charlie parte assim para um território inóspito, onde ninguém quer ir devido aos perigos que levanta – quer pelos aborígenes, quer pelos criminosos que encontram nessas áreas um refúgio.

Mas como já disse antes, esta é uma obra que segue muito mais as personagens que a acção, sempre tendo em conta uma Austrália onde é frequente sentirmos que dificilmente será “domada” ou “civilizada” – usando a expressão de uma das personagens principais. Esta é uma terra que teve uma colonização diferente da americana, onde a ida voluntária de colonos foi sistematicamente substituída por uma forçada vaga de indesejados de terras britânicas, o que trouxe diversas diferenças na abordagem do espaço. Assim somos confrontados por pessoas deslocadas, com objectivos diferentes e onde a aridez moral se assemelhava à paisagem desértica onde todos tentam sobreviver. E digo sobreviver em oposição a viver pois estes eram tempos muito complicados. Eram tempos onde grande parte dos jovens não conseguia viver acima dos vinte anos de idade, a criminalidade e os conflitos com os nativos eram frequentes, e ninguém se sentia seguro.

É curioso apontar as diferenças entre este trabalho e um “recente” sobre um dos mais famosos fora-da-lei australianos: o temível Ned Kelly.

Quase como oposição a esse trabalho, este argumento de Nick Cave, e a realização de John Hillcoat, um conhecido realizador de videoclipes para bandas como os Suede, Bush e do próprio Nick Cave, sabe enraizar o material que tem, dando à Austrália real o papel principal nesta obra.

E tal como a paisagem, as personagens que compõem este filme estão longe de ter apenas um layer, uma camada. Os bons e maus confundem-se, sendo tratados com uma complexidade que os faz afastar dos estereótipos comuns. Como exemplo dou a da personagem de Arthur, um assassino que tem um forte código de conduta e uma noção de família muito forte. No oposto temos o jovem Mickey, uma nítida vítima das circunstâncias e um jovem atormentado por algo que ajudou a fazer.

Mas associado a grandes personagens, está um grande elenco. Não indo destacar ninguém particularmente, mas definindo o grupo desta obra como um dos mais brilhantemente escolhidos dos últimos tempos, há que deixar uma ressalva, pois já vai sendo tempo de encarar Guy Pearce como um dos melhores actores da sua geração.

Se adicionarmos a isto o inerente tom poético, a magistral banda sonora de Cave, a apurada cinematografia de Benoit Delphone, e a excelência de planos e condução de personagens por parte de Hillcoat, então temos ‘The Proposition’, um dos melhores filmes a estrear em Portugal em 2006.

A não perder… …10/10…. Jorge Pereira

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