Ele foi uma voz rebelde que mudou o rock n’ roll. O seu nome é Johnny Cash e “Walk the Line” explora a sua carreira como musico, e como pessoa que, pela sua forma de estar, inspirou o mundo.
Elenco
Joaquin Phoenix, Reese Witherspoon, Robert Patrick, Ginnifer Goodwin, Shelby Lynne, Hailey Anne Nelson
Realizado por James Mangold
Critica
2004 foi o ano dos biopics (filmes biográficos) em Hollywwod. “The Aviator” (sobre Howard Hughes) e “Ray” (sobre Ray Charles) foram ambos nomeados para o Oscar de Melhor Filme e os respectivos protagonistas (Leonardo DiCaprio e Jamie Foxx) para o Óscar de Melhor Actor, que Foxx levou para casa. Mas podemos relembrar também “Kinsey” e “Finding Neverland”. Ou os ainda mais pertinentes “Beyond the Sea” sobre Bobby Darin e “De-Lovely” sobre Cole Porter, ambos músicos.
Em 2005, pelo menos um biopic vai certamente ficar na memória dos cinéfilos. “Walk the Line”, biografia de Johnny Cash, personalidade ímpar da cultura norte-americana. O único artista simultaneamente presente em três “Hall of Fame” – Country, Rock e Songwriters (compositores) – transcendeu o género musical para se tornar num ícone: “The man in Black”. Ao longo da sua carreira de 50 anos influenciou várias gerações de músicos por todo o mundo.
“Walk the Line” (título de um dos êxitos de Cash), realizado por James Mangold (“Kate & Leopold”, “Girl, Interrupted”), acompanha a vida de J.R. Cash (Joaquin Phoenix) desde a infância rural no Arkansas, mas centra-se sobretudo no início de carreira de Cash e no seu romance com a cantora June Carter (Reese Witherspoon). E é na dinâmica entre as duas personagens, e entre os dois actores, que o filme melhor funciona. Ao concentrar-se na história de amor, o realizador consegue evitar, embora não completamente, as armadilhas dos filmes biográficos. O desafio de retratar uma personalidade complexa e forte foi ganho recorrendo a uma narrativa simples, enquadrada pelo romance, e à intensidade da interpretação de Joaquin Phoenix. A vida de Johnny Cash pode ser dividida em vários actos e Mangold teve a inteligência de concentrar-se no segundo (da ascensão à fama em meados dos anos 50 ao casamento com June no fim dos anos 60). O terceiro, o regresso às origens cristãs, e o quarto, o renascer dos anos 90 também seriam muito interessantes, mas dificilmente caberiam todos num bom filme. Mesmo assim, Mangold tinha muito para contar e por vezes salta de momento importante em momento importante sem que se perceba quem é Cash, deixando muito por adivinhar no olhar de Phoenix.
June Carter é uma personagem bastante mais explícita, mais articulada, o contraponto à intensidade silenciosa de Cash, e Witherspoon tem um desempenho fantástico. Os momentos em palco, em que as canções são muito bem utilizadas para construir o filme, vivem das surpreendentes interpretações dos dois. Impossível não questionar se são realmente as vozes dos actores ou simplesmente uma sincronização muito bem feita. E é com surpresa que descobrimos que Witherspoon e Phoenix cantaram realmente. Maior estranheza ainda perante a transformação que se opera na voz de Phoenix, que consegue impressionar sem se tentar colar à voz distinta de Cash. Mas quando chega ao palco e diz “Hello, I’m Johnny Cash” nós sorrimos e acreditamos. Como acreditamos que os dois deviam ser nomeados para o Oscar.
O resto do elenco tem algumas surpresas, nomeadamente Waylon Payne no papel de Jerry Lee Lewis. Waylon Payne é filho de músicos country e parece muito confortável no seu papel. Ginnifer Goodwin interpreta um dos papéis que maior polémica levantou: Vivian, a primeira mulher de Cash. As filhas de Cash queixaram-se do tratamento dado à personagem e é facilmente compreensível porquê: Vivian é claramente secundária neste filme, tornando-se num obstáculo para Cash. Para o público em geral, no entanto, acaba por não parecer antipática, apenas transmite incompreensão e impotência.
“Walk the Line” é um filme sóbrio e simples, talvez demasiado para a complexidade de Cash. O realizador terá preferido não arriscar e o resultado dá-lhe razão. Pelo menos parcialmente: é sempre competente e interessante, envolvente, mas falta um bocadinho de ambição para ir mais longe. Graças aos desempenhos de Witherspoon e Phoenix, mas também a um fim muito hábil, tem argumentos para conquistar qualquer público que goste de música e/ou cinema. 8/10 Patrícia Gomes

