‘Shooting Dogs’ por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Um padre e um professor são apanhados no meio da tragédia no Ruanda, palco de um genocídio em 1994. Eles vão ter de escolher entre ajudar as centenas de vítimas ou lutarem pela sua própria segurança. Baseado numa história verdadeira.

Elenco

John Hurt, Claire-Hope Ashley, Hugh Dancy

Realizado por Michael Caton-Jones

Crítica

Surgindo apenas um ano após “Hotel Rwanda”, “Shooting Dogs” volta a lidar com a temática sempre delicada do genocídio de Rwanda de 1994, que vitimou cerca de 800 mil pessoas e que foi causado pelo conflito entre os dois grandes grupos éticos da região: os Hutus e os Tutsi.

Mas este filme de Michael Caton-Jones (responsável pelo completamente diferente “Instinto Fatal 2”) não merece estar a ser constantemente comparado a “Hotel Rwanda” (como tem sempre sido até agora) e portanto, começo desde logo por confessar que ainda não vi o muito aclamado filme de Terry George e tinha apenas noções básicas do massacre, logo serei a pessoa ideal para julgar esta nova película com uma mente aberta e livre de comparações redutoras.

“Shooting Dogs” decide apresentar a perspectiva estrangeira do confronto, com um padre e um professor de uma escola da região que se vêem cercados por milícias Hutus, as quais pretendem dizimar todos os Tutsis que encontrem, à imagem do que aconteceu com o Holocausto nazi há umas décadas atrás. E como todos os conflitos importantes parecem nascer da diferença e da subjugação de um grupo (ou vários) de pessoas, os Hutus arranjaram até uma alcunha bem bonita para os Tutsis – “baratas”…

A narrativa pode parecer simplista e unidimensional, com uma visão bem clara de quem são os bons e os maus da fita, mas seria impossível fazer de outro modo. Seria impossível contar a história toda do confronto desde os tempos da colonização no século XIX num só filme, e a película nem sequer pretende mostrar-nos o contexto histórico do massacre, apoiando-se apenas no aspecto humanista da história – aquele grupo de pessoas bastante diferentes que luta pela sobrevivência e pela igualdade de direitos, como todos nós… e que tiveram o azar de estarem no local errado à hora errada. Uma escolha bastante acertada, na minha opinião. E apesar do aspecto humano ser reforçado com uma mensagem bastante marcada, a abordagem nunca se torna demasiado pregadora, mesmo quando o factor “religião” vem ao de cima.

Mas o melhor acaba por ser mesmo a maneira assustadoramente realista com que Caton-Jones filma todo o conflito, fazendo-nos sentir como se estivéssemos mesmo lá há 12 anos atrás e fazendo o nosso coração bater mais depressa de cada vez que uma pessoa está prestes a ser morta à catanada. Este realismo acaba inevitavelmente também por amplificar ainda mais o impacto emocional, acabando este por ultrapassar as barreiras narrativas impostas à partida.

Contando com um elenco bastante forte e coeso – no qual se destacam Hugh Dancy (o príncipe encantado de “Ella Enchanted”), o veterano John Hurt e a estreante Clare-Hope Ashitey, “Shooting Dogs” é um filme importante sem dúvida, mas acima do rótulo de “importante” e das suas melhores intenções por detrás, é um filme bem feito sobre um dos acontecimentos mais condenáveis da história contemporânea. …7.5/10…. André Gonçalves

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