“Color Me Kubrick” por Cátia Simões

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

“Color me Kubric” baseia-se em factos reais que remontam a 1998, em Londres. O filme conta a insólita história de Alan Conway (John Malkovich), um homem que durante a produção de “Eyes Wide Shut” (derradeira obra do realizador), se fazia passar por Stanley Kubric – muito embora não tivesse qualquer semelhança física com ele e pouco soubesse do seu trabalho. Convém apenas acrescentar que Kubric sempre foi uma das mais reservados personalidades ligadas ao cinema, aparecendo muito pouco em público.

Desta forma, conseguia entrar em diversas festas particulares, restaurantes e discotecas. O filme tenta dissecar o que está para além da farsa em si, pois enquanto convencia os outros de que era um importante realizador de sucesso, Alan ia-se convencendo a si mesmo.

Elenco

John Malkovich, Honor Blackman, Bryan Dick, Leslie Phillips, James Dreyfus, Luke Mably, Nitin Chandra Ganatra, Angus Barnett, Lynda Baron

Realizado por: Brian W. Cook

Crítica

Alan Conway (John Malkovich), um homem desconhecido até na sua rua, fez-se passar, durante vários meses, pelo conhecido realizador Stanley Kubrick. Conway não conhecia o realizador nem sequer muitos dos seus filmes, mas isso não o impediu de se aproveitar da fama do realizador para conseguir dinheiro e que o sustentassem ou até mesmo para ter casos amorosos com jovens em busca de uma oportunidade no mundo do espectáculo.

A história decorre ao longo das burlas de Conway e do modo como ele insiste ser Kubrick, conseguindo sempre convencer os mais ingénuos de que era, de facto, o conhecido realizador. Conway aproveitou-se sobretudo do facto de Kubrick ser considerado um eremita, raramente ser visto em público e pouca gente saber como ele era fisicamente (devido à sua barba). E conseguiu convencer o meio em que se movimentava que era, de facto, Kubrick, através de um esquema bem montado, que chegou ao apogeu quando convenceu o cantor Lee Pratt de que conseguiria que ele fizesse carreira em Las Vegas.

Assumidamente homossexual, Conway servia-se da sua posição enquanto Kubrick para se aproveitar de jovens que procuravam sucesso no meio da sétima arte. A sua postura efeminada provoca um certo desconforto e ao mesmo tempo um pequeno fascínio pelo fabuloso desempenho de John Malkovich. O actor é o filme, e as oscilações entre a personagem que criou (Kubrick) e que acredita de facto ser e os momentos em que é apenas Alan Conway (muito poucos) são impressionantemente bem geridas. A maior parte das vezes Malkovich convence-nos de que pode mesmo ser o realizador, embora saibamos que ele é um burlão. E quando se assume como Conway, as suas acções são tão patéticas e desesperadas que chegam a fazer estremecer na cadeira.

O humor presente no filme é um humor irónico e de época, aproveitando-se muito do ridículo de certas situações. Alguns momentos são apenas compreendidos por quem conhece a obra de Kubrick, já que é usada a banda sonora dos filmes mais emblemáticos do realizador em cenas do dia a dia de Alan, como ir à lavandaria ao som do tema de “2001, Odisseia no Espaço”. Este toque na banda sonora torna certas cenas muito divertidas e a presença caricata do wannabe Kubrick faz com que todo o filme seja uma mistura de surrealismo e de alusões ao historial do conhecido realizador.

O trabalho de Brian Cook (o realizador) expressa-se sobretudo nos cenários bem construídos e na densidade da personagem de Alan, seja na sua própria pele ou na pele de Kubrick. Enquanto Alan, Malkovich tem um desempenho fabuloso, fazendo que o espectador sinta dó e ao mesmo tempo uma certa repulsa por aquele homem. Enquanto Kubrick, as pretensões e poses feitas por Malkovich (da voz à roupa) tornam tudo mais caricato, especialmente porque a imagem que se nos cola ao olhar não é, de todo, a que temos de Kubrick. O que falha, quanto a mim, é o espectador não se conseguir desligar da figura de Malkovich e vê-lo como Kubrick. Não obstante o fantástico desempenho do actor, vi John Malkovich durante todo o filme. Talvez esteja relacionado com a imagem que ficou do filme “Being John Malkovich”…

Os cenários são interessantes, mas o toque de génio está nos figurinos de Conway; o burlão usa sempre a mesma roupa, alternando alguns conjuntos com um toque fino e efeminado, como lenços ou luvas de rede conjugados com meias às bolinhas e ténis sujos. A escolha do guarda-roupa mostra perfeitamente aquilo que Conway é: um burlão sem dinheiro e com pretensões de ser mais do que é.

No geral, o filme apresenta planos interessantes de pormenor de Malkovich e um fio condutor da história sólido e divertido. É uma aventura baseada numa rotina que julgamos demasiado fantástica para acreditarmos ser verdadeira…8/10…. Cátia C. Simões

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