“Crimen Ferpecto” por Rita Almeida e Victor Melo

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Rafael é um tipo sedutor e ambicioso. Gosta de mulheres, roupa elegante e um ambiente selecto. Trabalha num armazém e converteu a secção de senhoras no seu feudo particular. Nasceu para vender. Corre-lhe no sangue.
Mas Rafael aspira converter-se em chefe. O seu principal rival é Don António, o veterano responsável pela secção de cavalheiros. Por fatalidade do destino, Don António morre acidentalmente após uma discussão acalorada.
A única testemunha do crime é Lourdes, uma naif obsessiva que não perde tempo em chantagear Rafael para que este se transforme no seu amante, marido e escravo.

Elenco

Guillermo Toledo, Monica Cervera, Luis Varela

Realizado por: Álex de la Iglesia

Crítica

Antes de mais convém referir que “Crimen Ferpecto” não se trata de um erro ortográfico. Numa alusão deturpada ao filme de Hitchcock “Dial M for Murder” (1954) (intitulado “Crimen Perfecto” em Espanha e “Chamada Para A Morte” em Portugal), Álex de la Iglesia faz aqui uma homenagem ao thriller psicológico, desconstruindo-o com mais uma viagem alucinada de personagens levados, por outros, ao extremo da loucura. Pisca também o olho a Goscinny, na expressão ‘Ferpeito!’ usada abundantemente pelo ébrio Obelix em “Asterix – Os Louros de César”.

Rafael (Toledo) é sedutor e ambicioso. Gosta de mulheres bonitas (definitivamente La Palice!), de roupa elegante e de todos os sinais de status social elevado. Trabalha na secção de Senhora de uns grandes armazéns, onde disputa com um colega da secção de Homem, Don Antonio (Varela) a promoção ao posto de director de piso. Após uma acesa e física discussão, Don Antonio morre acidentalmente.

Mas existe uma testemunha: Lourdes (Cervera), uma feia empregada, obcecada por Rafael e que não hesita em chantageá-lo para que seja seu amante, e, mais tarde, seu marido. Rafael, capaz de tudo para conseguir o que quer, é confrontado com uma versão ainda pior de si próprio. Desesperado ao ver o seu mundo sofisticado cair vertiginosamente na vulgaridade que sempre abominou, Rafael traça um plano para se livrar de Lourdes.

Um humor negro impregna esta crítica social à obsessão pela imagem e pelo consumo desenfreado como forma de suprir as necessidades emocionais cada vez mais profundas. De la Iglesia volta a contar com a colaboração de Jorge Guerricaechevarría no argumento, fazendo uso do tom cómico e bizarro que costuma caracterizar as suas obras (“Perdita Durango” – 1997, “La Comunidad” – 2000), para mostrar a podridão que muitas vezes se esconde atrás das belas aparências.

O cenário de “Crimen Ferpecto” foram uns armazéns de Sevilha, que tinham fechado dois anos antes. As lojas são, por excelência, onde se vende e se compra essa aparência, e onde a perfeição tem muito pouco a ver com a realidade. E é inevitável reportamo-nos ao maravilhoso mundo do El Corte Inglés, com as suas semanas fantásticas que duram 15 dias. A televisão, na sua gula pela privacidade, também não é esquecida.

A opção de De la Iglesia pelo pormenor do fantasma de Don Antonio surge sem grande sentido, ainda para mais se acrescentarmos o facto de os seus conselhos serem dirigidos a um suposto inimigo. Existem também incongruências na fase final do filme, além da poética moralidade, que são consideravelmente difíceis de engolir e nos deixam desconsolados face à premissa original.

Apesar de tudo, vale a pena pelas soberbas interpretações de Toledo e Cervera. E pela visão mordaz sobre o elemento de “consumismo” que existe nos relacionamentos.6/10 …. Rita Almeida

Crítica

“800 Balas” teve uma aparição muito atrasada nas salas de cinema Portuguesas. Para além de atrasada foi fugaz. Saiu de cartaz passado cerca de duas semanas de exibição, sendo que na altura perdi a oportunidade de ver no grande ecrã esse filme, que “pertence” ao reportório de um dos meus realizadores espanhóis de eleição. Para minha grande satisfação, Álex de la Iglesia está de volta às nossas salas.

“Crimen Ferpecto” estreia esta semana. Como era de esperar, é mais um filme dentro do estilo sui generis deste realizador. Mais um “casamento” feliz entre o thriller e a comédia negra.
A acção passa-se numa grande superfície comercial, em especial na secção de roupa feminina, onde Rafael, o vendedor chefe – sedutor nato com aversão à normalidade e à rotina – ambiciona obter o cargo de dirigente geral do andar.
Tudo parece correr na perfeição até que uma sádica cadeia de acontecimentos vai alterar por completo os seus planos. De um momento para o outro, a secção feminina transforma-se de um fogoso harém celestial num gélido inferno … e os sonhos de Rafael sofrem uma dolorosa castração…
A tensão de “La Comunidad”está presente, embora em menor nível, tendo sido substituída por um forte sentimento de angústia … angústia essa tão bem explorada que, durante vários momentos do filme, chegamos ao ponto de nos sentirmos solidários com o coitado do Rafael, partilhando o sabor da sua amarga situação.
Preparem-se para momentos hilariantes, situações banais do quotidiano repletas de simplicidade, mas adornadas com a ironia e o sarcasmo brilhante característico de Álex de la Iglésia.

Para sentar no escuro, encostar na cadeira, relaxar … e sentir a divertidíssima estrangulação emocional que nos aguarda. …7/10…. Victor Melo

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