Esta história começa no Japão dos anos 30 e segue o percurso de vida de uma escrava que se tornou gueixa, que sobreviveu às maiores privações e aos horrores da guerra para se tornar numa das mais famosas gueixas do Japão.
Elenco
Ziyi Zhang, Michelle Yeoh, Ken Watanabe, Koji Yakusho e Li Gong
Realizado por Rob Marshall
Crítica
A história do filme começa em 1929, no final da era de ouro das Gueixas, num tradicional hanamachi (ou bairro de gueixas). Quando Sayuri (Ziyi Zhang) chega a este mundo meio perdido, descobre que não é livre para amar ou para tomar as suas próprias decisões. A sua mentora, Mameha (Michelle Yeoh), ensina-lhe a diferença entre ser carinhosa com o seu protector (ou danna) e amá-lo. Ao contrário da sua rival Hatsumomo (Gong Li), que procura destruir Sayuri, Mameha sabe que uma gueixa não pode deixar-se sucumbir a nenhuma paixão por nenhum homem. No entanto, Sayuri vive deslumbrada por um momento de bondade que lhe foi oferecido por um homem poderoso, era ela ainda uma escrava, e passa os seus dias como gueixa ansiando pelo momento que o voltará a ver.
Rob Marshall traz até nós o secreto e desejado mundo das gueixas japonesas, com uma história contada na primeira pessoa por uma jovem que passou de escrava a gueixa. O filme começa com a chegada da jovem à casa onde ficará e onde será escravizada; neste momento os planos são rápidos e curtos, acompanhando a confusão que a jovem Chiyo (e mais tarde Sayuri) sentira a primeira vez que chegara ao bairro das gueixas. É interessante ver que a câmara apresenta o ponto de vista subjectivo da jovem japonesa, onde tudo parece escuro, enorme e assustador.
Com o desenrolar da história, o realizador opta por planos mais abertos e estáticos, que permitem observar o mundo das gueixas em toda a sua magnificência. Este é um filme, acima de tudo, visual. As roupas, os cenários (construídos de raiz para o filme), as danças, a música e os próprios rituais que envolvem as gueixas são o ponto forte da película, sobressaindo muito mais que a simples história de amor que se apresenta. No entanto, a realização acaba por ser algo parada, talvez para sugerir a calma oriental; a placidez dos planos e dos gestos acabam por tornar o filme algo aborrecido em certos momentos.
Tendo lido o livro de Arthur Golden, fiquei algo desiludida com a forma como a história foi contada: pormenores da aprendizagem de Chiyo foram passados rapidamente, ao passo que Marshall se centrou muito mais na paixão proibida dela. As personagens são muito mais ricas no livro, especialmente a cruel Hatsumomo, que no livro é verdadeiramente malvada e no filme parece apenas cínica e um pouco louca.
As personagens não são o que eu tinha imaginado ao ler o livro, mas preenchem bem as suas funções. Apenas Hatsumomo e a Mãe são uma desilusão, porque se esperava maiores requintes de malvadez e ganância. Também a avó, que aparece com mais destaque no livro, é deixada para segundo plano no filme. No entanto, as interpretações de Mameha e de Sayuri são fantásticas, em especial a da jovem gueixa, quando faz as danças típicas japonesas, empoleirada em sapatos com sola de meio metro, ou quando se finge inocente ao servir chá a homens poderosos.
Não obstante toda a confusão de cores, de coreografias fantásticas e de cenários bem construídos (não esquecendo uma banda sonora incrivelmente bem desenvolvida), o filme não se afasta do seu eixo principal, o amor proibido de Sayuri. Embora seja interessante ver como as gueixas viveram no tempo de guerra, esses momentos são passados rapidamente; a justificação talvez seja a necessidade de encurtar o filme. No entanto, certas situações precisavam de uma maior profundidade, sob o risco da não compreensão do que se tinha passado.
Um destaque muito positivo para a banda sonora, A música criada por John Williams (vencedor de cinco Oscars) tinha um misto de sons orientais e ocidentais, e músicos especialistas em instrumentos tradicionais japoneses, como shamisen, koto, shakuhachi, tambores taiko (instrumentos típico japoneses) estavam entre a orquestra responsável pela banda sonora.
Este filme agradará aos fascinados pelo mundo oriental ou aos que se interessam por histórias de amor proibido. A cor e os gestos das gueixas dão o melhor plano de fundo possível, transformando uma história simples num universo complexo e misterioso… 7/10 Cátia C. Simões
Crítica
Lamechas, aborrecido e previsível.
Na sala cheguei a pensar que a minha irritação se devia apenas a não me ter conseguido abstrair durante quase todo o filme da respiração incomodativa do senhor que se sentou ao meu lado. Mas agora, no silêncio, a má impressão permanece.
Eu já tinha visto o livro “Memórias de uma Gueixa” nas primeiras estantes das livrarias e nunca me senti seduzida por aquilo que me parecia uma leitura de Verão. Agora descubro que (ao contrário do que eu pensava quando estava a ver o filme), o autor é o americano Arthur Golden, que conta de ouvir dizer e que foi processado pela ex-gueixa de quem ele diz ter recolhido a informação para o livro. Este facto, aliado à produção Hollywoodesca de Rob Marshall (“Chicago”, 2002) justificam completamente a aura de falsidade que envolve este filme e que impede qualquer possibilidade de emoção.
Telegraficamente, “Memórias de uma Gueixa” conta a história de Chiyo (Suzuka Ohgo), a filha de um pobre pescador que, em 1929, é vendida para uma casa de gueixas (um género de animadoras sociais). A la Dickens ela é objecto da crueldade da gueixa mais importante da casa, Hatsumomo (Gong Li), que a vê como uma futura rival. É ainda na infância que um encontro com um gentil homem de negócios (Ken Watanabe) irá fazê-la decidir pela vida de gueixa. Já adolescente, Chiyo (Zhang Ziyi) é amadrinhada por Mameha (Michelle Yeoh), que a baptiza de Sayuri e que lhe ensina a arte, pelos seus próprios motivos pessoais.
As personagens não têm profundidade psicológica, não há conflitos dramáticos que captem o nosso interesse, os diálogos são pobres e ridículos (a metáfora sexual da cobra e da gruta ainda me causa arrepios), e tudo em inglês. Deus nos livre que os americanos tenham alguma vez de ver um filme com legendas!!! Mas também, num elenco de chineses, malaios e japoneses, talvez o inglês fosse de facto o denominador comum. (Mais um ponto a acrescentar a esta fantasia ocidental de uma Cinderela asiática: todos os orientais são iguais!) E vemos grande actores como Michelle Yeoh (“O Tigre e o Dragão”), Ken Watanabe (“Batman Begins”) e Gong Li (“A Tríade de Xangai”, “Hero”) castrados numa das suas ferramentas essenciais, a palavra. Quando à protagonista Zhang Ziyi (“Hero”, “O Segredo dos Punhais Voadores”, “2046”), de indiscutível beleza, tem ainda muito para aprender com no que a expressividade diz respeito, inclusivamente com a pequena Suzuka Ohgo que faz o papel de Chiyo na infância.
Mas há que dar a mão à palmatória, Rob Marshall percebe de sumptuosidade. Por isso junta a bela fotografia de Dion Beebe, o design de produção de John Myhre, o guarda-roupa de Colleen Atwood e a música de John Williams. Mas nem só de técnica se faz um filme. E, sem essência, isto é só cosmética, que na manhã seguinte está colada à almofada. Nada disto soa a verdade. É apenas uma bonita mentira, para quem quiser acreditar. Se ao menos mentisse melhor… 4/10…. Rita Almeida

