“Where the Truth Lies” por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Nos anos 50, Lanny Morris (Kevin Bacon) e Vince Collins (Colin Firth), eram os ‘entertainers’ mais populares na América. A dupla clássica – Lanny o cómico maníaco, e Vince o bom rapaz, cheio de classe – estes “boys” tanto conseguiam fazer o público chorar a rir das suas piadas como chorar de comoção numa das suas famosas tele-maratonas de beneficência. Eles estavam no topo, eram ricos, poderosos, e tremendamente populares, quando algo terrível aconteceu e fez ruir o seu sucesso.

Inexplicavelmente, uma jovem aparece morta na sua suite do hotel. As suas reputações são abaladas, mas graças a sólidos álibis, nenhum deles é acusado do crime. A sua parceria, no entanto, é destruída. Lanny and Vince conseguem gerir carreiras a solo e os anos passam sem que nenhum fale com outro, ou com qualquer outra pessoa, sobre o crime. A razão da separação de Morris e Collins torna-se num dos grandes mistérios do show-business…

Quinze anos mais tarde, nos anos 70, a aspirante a escritora Karen O’Connor (Alison Lohman), decide transformar o caso numa história explosiva. Ela obtém uma lucrativa oportunidade para escrever um livro sobre Morris and Collins, e começa a descortinar os factos por trás desta separação tão falada no showbiz. A sua investigação leva-a a um envolvimento sexual e emocional, tanto com Lanny como Vince, e, quanto mais enrolada Karen se vê com estes homens e com a sua história, mais difícil se torna para ela aceitar a perturbante verdade sobre os mesmos e sobre si própria. O que Karen encontra é uma história complexa e chocante de talento e traição, amor e desejo, segredos escondidos e confiança atraiçoada.

Elenco

Kevin Bacon, Colin Firth, Alison Lohman

Realizado por Atom Egoyan

Crítica

Apesar de nunca ter recebido a Palma de Ouro no Festival de Cannes, o cineasta canadiano (de origem arménia) Atom Egoyan é um dos muitos habitués do certame e não foi assim de estranhar que “Where the Truth Lies” estreasse lá.

O seu trabalho mais aplaudido foi o fabuloso “The Sweet Hereafter“ (Futuro Radioso), que para além de ter ganho o Grande Prémio do Júri, o Prémio do Júri Ecuménico e o Prémio FIPRESCI, conseguiu também ser nomeado ao Oscar. Mas antes desta obra, Egoyan já tinha brilhado em 1994 com “Exótica”. O (relativamente) recente “Ararat” e “Felicia’s Journey” são outros dos seus trabalhos, numa carreira bastante rica e muito aplaudida.

Como apreciador da generalidade dos filmes de Egoyan, as minhas expectativas eram bastante elevadas, especialmente depois de saber que esta sua incursão revisitava os campos do cinema “noir” e onde – tal como em “The Sweet Hereafter” – todos parecem esconder um segredo. Para além disso, o filme foca de forma bastante pensada a velha questão da fama, e o conflito entre o mito público e a história privada.

Descrito como “a história de um conflito”, e Baseado na obra de mistério de Rupert Holmes, “Where the Truth Lies” segue a busca da verdade (e da fama) por parte de uma jornalista que aspira ser escritora nos anos 70. Há quinze anos atrás, uma linda jovem é encontrada morta na banheira da suite de um hotel, depois de supostamente ter passado a noite numa festa com duas celebridades do mundo do espectáculo (dois comediantes muito populares no fim da década de 50 nos Estados Unidos). O duo, apesar de ilibado, separa-se e prossegue as suas carreiras a solo, recusando-se a voltar a falar dos factos ocorridos naquela noite.

Como já disse anteriormente, em “Where the Truth Lies” as personagens são multifacetadas e esta situação arrasta a tensão e o interesse de quem visiona a obra. O trabalho cénico e a direcção artística são excepcionais, não sendo apenas o espectador transportado para uma era diferente, mas vivendo-a intensamente.

Quem também ajuda são os actores, brilhantes em toda a linha, destacando-se a calma de Colin Firth, e o olhar provocador de um Kevin Bacon cada vez mais “actor”. Depois há Alison Lohman, uma actriz que muitos consideram mal escolhida para este papel, mas que eu penso ter sido a escolha perfeita. Lohman e a sua personagem são os típicos diamantes em bruto, que só ganham com a ingenuidade que demonstram em cena. Aliás, é esta ingenuidade que lhe dá uma maior expressividade, e mesmo distância de duas vedetas do entretenimento habituados a lidar com todas as situações. É que se uns até gostavam de ser mais anónimos que são, outros desejam a fama e o reconhecimento. Lohman representa isto mesmo, tendo no seu ar de menina a perda da inocência, como quem vê cair uma estrela, ou morrer um mito.

Por essas razões, “Where The Truth Lies” acaba por triunfar, mesmo que a acção e o desvendar do mistério se torne demasiado rebuscado no último terço do filme – sendo previsível onde não devia ser. Aí, a calma e a paciência em contar a história dão lugar a uma repentina pressa em desvendar todo o mistério, não equacionando o mal que isso provoca no contexto global, pois o espectador é arrastado (e violentado) para uma resolução, e não conduzido a entendê-la profundamente…

De qualquer maneira, “Where The Truth Lies” tem muito mérito, pois uma “casa” não pode ser destruída apenas pelos acabamentos…….6/10 Jorge Pereira

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