“Jarhead” por Cátia Simões e Rita Almeida

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

O filme baseia-se no livro homónimo de Anthony Swofford, um marine que escreveu as suas memórias e impressões próprias sobre a primeira guerra do golfo.

Elenco

Jake Gyllenhaal, Jamie Foxx, Peter Sarsgaard, Lucas Black, Chris Cooper, Dennis Haysbert, Rini Bell

Realizado por Sam Mendes

Crítica

Sam Mendes volta ao grande ecrã, após alguns anos de ausência. O realizador, que tinha apresentado “Road to Perdition”, corria o ano de 2002, e volta agora com um registo completamente diferente.

“Jarhead” poderá ser o filme de consagração de Jake Gyllenhaal, e uma preparação do público para o seu desempenho em “Brokeback Mountain”. O filme baseia-se na história de Swoff, um marine que faz a recruta e se torna “sniper”, treinando para a guerra do Iraque. Quando chega ao deserto, Swoff e os restantes soldados do seu pelotão terão de lidar com a pressão psicológica do calor e da inércia e o desejo de acção, naquilo que foi a preparação para a operação “Desert Storm”. Tudo é baseado no livro de Anthony Swofford, datado de 2003, onde é relatada a experiência do autor no Iraque e no Kuwait. A expressão “Jarhead” é o equivalente americano da nossa Máquina zero, e significa precisamente o corte de cabelo curto dos marines, como se fosse um frasco.

A base do filme é interessante: há algum tempo que não nos deparávamos com uma película em que a acção principal fosse uma das guerras tipicamente americana (o Vietname ou o Iraque). Sam Mendes mantém a linha de acção que nos habituámos a ver neste tipo de filmes, talvez até um pouco exageradamente: o início, da altura da recruta, parece retirado do clássico “Full Metal Jacket”, ao passo que o restante filme e a voz off de Swoff sempre presente fazem lembrar a tensão psicológica de “Apocalipse Now”.

No entanto, embora os elementos de grandes clássicos bélicos estejam presentes, o filme não apresenta, obviamente, a exuberância do cenário de selva que apresentam os filmes no Vietname. Não obstante, o deserto é apresentado de modo colorido, assustador e mortífero. Sam Mendes usa e abusa dos tons amarelos e chega mesmo a amarelecer os verdes e castanhos presentes nos camuflados. A realização é aquela que esperamos de Mendes: algo lenta, com planos fantásticos e interessantes efeitos com a câmara, neste caso as ilusões ópticas provocadas pelas ondas de calor e o espectáculo incrível de poços de petróleo a arder, lançando vermelho por todo o lado.

Durante todo o filme, o que vemos é a preparação para um combate que se avizinha mas não acontece; a espera; a tensão; o calor abrasador do deserto e a tentativa de passar o tempo sem enlouquecer; os ciúmes da namorada que ficou nos Estados Unidos e o companheirismo e brincadeira entre os diferentes elementos do pelotão. Se é verdade que pouco ou nada acontece, em termos de acção, a tensão psicológica que se arrasta e que nos é apresentada demonstra bem o estado de espírito dos soldados. Da mesma maneira que eles querem que algo aconteça, também o espectador se exaspera com tantos compassos de espera e com uma acção quase inexistente. Apenas uma ressalva: Sam Mendes arrastou demais este sentimento, tornando o filme algo longo para aquilo que acontece em termos de acção e linha narrativa.

O argumento, embora baseado no livro de Swofford, é muito interessante. O facto da narração ser feita por Swoff torna tudo mais poético e próximo do espectador, permitindo alguns momentos de literatura verdadeiramente interessantes.

Os desempenhos dos actores são muito interessantes, embora todos eles se baseiem em personagens-tipo: temos o soldado mais calado e reservado, mas nobre, fantasticamente representado por Peter Sarsgaard; o Sargento duro mas preocupado com os seus soldados, mais uma grande prestação do galardoado Jamie Foxx; o soldado “nerd” que é sempre ostracizado pelos outros, na pele de Brian Geraghty. O tom cómico e mais brejeiro que conhecemos dos soldados (sempre com piadas de cariz sexual, nem todas muito simpáticas), é dado pelo desempenho muito interessante de Scott MacDonald. Por fim, Jake Gyllenhaal, soldado algo rebelde mas que se embebeu na filosofia dos marines e do sniper: ele é a sua espingarda e a sua espingarda não é nada sem ele. Swoff espera o dia em que possa disparar contra algo, apenas um tiro perfeito que lhe faça valer os anos de recruta.

Sam Mendes joga muito bem a ligação entre as diferentes personagens e aproveita ao máximo o seu potencial, passando da amizade a rasgos de fúria e brigas enormes, provocadas, sem dúvida, pela inércia do deserto.

As opiniões sobre este filme poderão ser bastante divergentes, dependendo da expectativa que se tem face a um “filme de guerra”. Os apologistas de filmes de guerra com muita acção não vão ficar totalmente satisfeitos com este filme, mais direccionado para os amantes da pressão psicológica em situações extremas e, claro, os apreciadores da excelente obra de câmara de Sam Mendes…. 9/10 Cátia C. Simões

Crítica

A minha expectativa de uma abordagem estilo “Full Metal Jacket” (Stanley Kubrick, 1987) saiu completamente defraudada com “Jarhead”.

A adaptação de Sam Mendes da autobiografia de Anthony Swofford sobre a Guerra do Golfo surge mais como um exercício estilístico, de inegável beleza graças à fotografia de Roger Deakins, do que como uma história.

Somos levados a acompanhar a transformação do marine – “jarhead” – Swofford (Jake Gyllenhaal) numa máquina de matar, na companhia do colega Troy (Peter Sarsgaard) e sob a liderança do Sargento Sykes (Jamie Foxx). Desde a humilhação e despersonalização do seu treino como atirador, até à agonia, ansiedade, medo e angústia quando, chegados ao deserto, em vez de guerra tem uma espera entediante na retaguarda. E assim temos o quotidiano previsível da companhia nas dunas, enquanto tentam ocupar o seu tempo e procuram algo onde possam descarregar a arma. Afinal de contas é isso que justifica o terem-se alistado, é disso que precisam para serem heróis. As suas expectativas – alimentadas à conta de filmes – saem completamente frustradas, dando a impressão de que a preparação para a guerra pode ser tão traumática como a própria guerra.

Mas o grande risco de filmar o tédio é… enfim… o próprio tédio…

E eventualmente, o aborrecimento das personagens acaba por se transpor ao espectador, que, até ao fim, continuará à espera de uma história que prendesse e que valesse a pena ser contada. Talvez o filme se salvasse com uma espectacular cena de guerra à moda antiga. Mas nem isso.

Apesar de bem representado, a backstory das personagens é mínima, e ficamos sem perceber quais as suas motivações. Mendes contou com o carisma de Gyllenhaal, que, apesar de uma personagem quase linear, é convincente no riso, no choro, na raiva, na cobardia. Sarsgaard, como sempre, sem falhas, assim como Jamie Foxx. No entanto, já vimos toda esta gente antes, uns motivados pelo patriotismo, outros pela adrenalina, outros pela falta de alternativas, mas nada de novo. Existe algum mérito no carácter apolítico e imparcial da obra. E não se põe em dúvida o realismo da mesma. Mas nem tudo o que é real merece a passagem ao cinema. Contudo, a forma ambígua com que tudo é apresentado, mais do que transparecer a vontade de não fazer julgamentos entre o bem e o mal, ou entre guerra e paz, parece ser apenas uma forma de não fazer inimigos – e pelos valores de venda do livro vê-se que a opção politicamente correcta traz os seus frutos. A ironia, que podia ser uma arma eficaz neste caso, é pouca e mal usada, e as verdades são tão evidentes que a sua afirmação não passa de cliché.

A tentativa de Mendes de fazer um filme diferente foi bem sucedida. Mas diferente não quer dizer bom. E a sua preocupação com a forma e o visual não chega para compensar a falta de sentido de “Jarhead”. No final, a memória cumprirá o seu papel, esquecendo-se deste filme no panteão dos filmes de guerra. E que pena me dá, porque confesso que o “American Beauty” ainda é uma das minhas grandes referências.

A melhor imagem do filme (e estou a tentar abstrair-me do torso nu de Gyllenhaal) é, sem dúvida, os soldados americanos cegados pelo petróleo. Um símbolo demasiado real para ser ignorado. ….4/10 Rita Almeida

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