Sinopse
O filme segue o percurso de dois amigos que partem para uma viagem pela California vinícola, por sugestão de Miles, mesmo antes de Jack casar. Jack Pitcairn (Thomas Haden Church) tem quase 40 anos é um actor falhado que vai ganhando a vida (mas mal) como voz-off. Com ele leva Miles Raymond (Paul Giamatti), um escritor falhado que ganha a vida como professor de Inglês, e que é o seu melhor amigo é o seu padrinho de casamento. Miles resolve levar o amigo para a zona vinícola, pois considera-se um conhecedor e apreciador de bons vinhos (que escondem o que na realidade é, um alcoólico). Durante a sua road trip, os dois vão discutindo os seus fracassos e pôr em questão os seus relacionamentos com as mulheres e a vida em geral.
Elenco
Paul Giamatti, Sandra Oh, Thomas Haden Church, Virginia Madsen, Marylouise Burke, Missy Doty, Jessica Hecht, Alysia Reiner, M.C. Gainey, Duke Moosekian, Shake Tukhmanyan, Patrick Gallagher, Robert Covarrubias, Joe Marinelli
Realizado por Alexander Payne
Critica
Alexander Payne afirma-se a cada filme como um dos mais promissores realizadores de Hollywood. “Sideways” é a sua quarta longa metragem, uma visão desconsoladamente divertida do fracasso da vida e da procura introspectiva do rumo e da identidade.
Jack (Thomas Haden Church) vai casar. Miles (Paul Giammati) seu melhor amigo e padrinho decide levá-lo para uma semana de férias por entre provas de vinho e golfe. São ambos fracassados profissionalmente, Jack é um actor outrora famoso por algumas soap operas, que agora vai fazendo anúncios televisivos para sobreviver, e pondera tornar-se empregado do futuro sogro. Miles tenta tornar-se à terceira vez um autor publicado, enquanto dá aulas de literatura a contra gosto. Quando finalmente chegam ao seu destino, Miles e Jack têm perspectivas diferentes de qual o caminho a seguir. Enquanto Miles pretende passar o tempo entre vinhos e golfe, Jack só tem um pensamento… conhecer mulheres.
A “primeira vítima” é Maya (Virginia Madsen), uma empregada de mesa, conhecedora de vinhos e desencantada com a vida, que Miles já conhece de viagens anteriores. A segunda é Stephanie (Sandra Oh), empregada numa das provas de vinhas e que Jack “engata” durante a compra de umas caixas de vinho.
A partir daqui começam a nascer dois relacionamentos diferentes entre os dois casais. Enquanto Jack e Stephanie caem rapidamente nos braços, e não só, um do outro, Miles e Maya começam a conhecer-se aos poucos, pois ambos tiveram anteriormente relacionamentos dolorosos. Aliás, ambos protagonizam um brilhante diálogo em que Maya nos vai descrevendo o ciclo da vida humana na perspectiva de uma garrafa de vinho.
O maior triunfo de “Sideways” é a mestria com que é conduzido por Alexander Payne, sobretudo ao nível da direcção de actores. A interacção e química entre o elenco é perfeita. Um casting sem “vedetas”, mas certeiro com Sandra Oh e Virginia Madsen a não deixarem os seus créditos por mãos alheias, junto as seus brilhantes co-protagonistas masculinos. Thomas Haden Church, nomeado ao Oscar de Melhor Actor Secundário, está magnifico e consegue praticamente a cada intervenção arrancar-nos uma gargalhada. No entanto, a estrela maior é Paul Giamatti, que muito injustamente foi o maior esquecido nas nomeações ao Oscar de Melhor, pois Miles está perfeito.
Sem nunca perder o rumo, a narrativa perde consistência quando as duas raparigas saem de cena, e Jack vai arranjar novas confusões ao pobre Miles. Durante alguns minutos, sentimo-nos no meio de uma comédia slapstick, onde não falta um hilariante e atabalhoado resgate de uma carteira com Bush e Donald Rumsfeld como pano de fundo.
Uma comédia para ser “degustada” por todos os que pretendem mais que um riso fácil…8/10 Carla Calheiros
Critica
Miles (Giamatti) é um professor de inglês, apreciador de vinhos, divorciado, que espera a qualquer momento a sua oportunidade de editar um livro. O melhor amigo de Miles, Jack (Haden Church) é um actor reduzido a fazer voz-off em anúncios, e está prestes a casar.
Para celebrar essa última semana de liberdade, Miles leva Jack numa viagem pela região vinícola da Califórnia. Mas Jack está mais interessado nos prazeres da carne que nos da bebida e nesta viagem conhece Stephanie (Oh, mulher do realizador), com quem inicia uma atribulada relação. Miles, por sua vez, ainda emocionalmente preso à sua ex-mulher, vê a possibilidade de retornar à superfície com Maya (Madsen), especialmente seduzido pela forma como ela aprecia e entende o vinho.
Sideways é um road movie que marca o ritual de passagem à idade adulta, entendida como a altura em que aprendemos a enfrentar os nossos medos, a aceitarmos os outros e a nós mesmos, e em que descobrimos o que queremos da vida. Como um vinho que atinge a maturidade, é na meia-idade que estamos prontos a ser abertos e bebidos. Ou melhor, a abrirmo-nos e a beber a vida.
Enquanto Jack só se quer divertir, como um adolescente irresponsável que foge o mais que pode ao peso de ser adulto, Miles sente-se impotente para o fazer, controlando pequenas coisas ao seu redor para se sentir seguro. Jack chega ao final desta viagem um pouco mais crescido e Miles um pouco mais livre.
Giamatti é um perito na transposição da dor, seja ela dramática ou cómica, como acontece em American Splendor (Shari Springer Berman e Robert Pulcini, 2003). Mais uma lacuna nas nomeações para os Oscar.
Por outro lado, o argumento de Alexander Payne e Jim Taylor tem o mérito de nunca nos fazer desprezar estas personagens cheias de falhas. Conseguimos mesmo alguma empatia por estes dois homens honestos, que, sem se entenderem, se aceitam. E essa aceitação é, com efeito, a base da verdadeira amizade.
Sideways flui com os desejos e necessidades das personagens, sem querer provar nada, sem querer confrontá-los com os seus erros ou redimi-los dos mesmos. Este filme tocará quem já se tenha sentido frustrado ou olhado o largo abismo entre a montanha das suas ambições e o fundo vale da sua realidade.
Sem grande acção, a mensagem perde-se algures entre as belíssimas paisagens e a conversa sobre vinhos, tão detalhada que quase os conseguimos cheirar e saborear. Quando saí do cinema a minha mão já desenhava, ansiosa, os contornos de um belo copo de Pinot. 6/10 Rita Almeida

