‘The Brown Bunny’ por Jorge Pereira e Carlos Natálio

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Bud Clay é motociclista de Formula II 250 cc. A história tem início em New Hampshire, com mais uma corrida de Bud. Mas, dentro de cinco dias terá de estar na Califórnia pronto para mais uma corrida. Assim, começa a sua viagem ao longo da América. Dia após dias, Bud tenta afastar os fantasmas do passado e fazer com que a memória do seu último relacionamento desapareça. Para isso, procura um novo amor que o acompanhe na viagem. No entanto, Bud deixa para trás cada mulher que aceita o seu convite, pois não consegue substituir Daisy. Ela havia sido a única mulher que amara e por mais que tente, não consegue esquecê-la. 

Elenco

Vincent Gallo e Chlöe Sevigny 

Realizado por Vincent Gallo 

Crítica

Filme polémico, que estreou em Cannes e que conta a história de um homem em busca do que já perdeu; o amor da sua vida. Podia-se resumir “The Brown Bunny” a isto mas sendo o filme do novo enfant terrible do cinema americano – Vincent Gallo- há sempre mais qualquer coisa a acrescentar.
 
Conhecido por papeis fortes no cinema, como em o Funeral (de Abel Ferrara) ou “Buffalo 66” -que também realizou- Gallo teve a coragem de levar até alguns dos mais importantes festivais do Mundo – Cannes e Toronto- um filme completamente simbolico e que só o próprio autor consegue ver o que quer contar. Aqui não há meios termos. Esta é uma obra ou que se gosta, ou que se detesta.
 
Roger Ebbert descreveu esta obra como “O Pior Filme que já esteve em Cannes”. Gallo respondeu com uma série de insultos, chamando entre outra coisas “gordo” a Ebbert. A resposta de Ebbert foi fulminante. “Eu sou gordo mas posso emagrecer enquanto ‘The Brown Bunny’ sempre será um filme realizado por Vincent Gallo”.
 
Antes de dizer qual a minha opinião sobre este filme há alguns elementos a ter em consideração. O filme começa com Gallo numa corrida de motas numa pista que até o consagrou. Tudo é filmado ao longe e assistimos ora ao ruido das “laps” que Gallo vai dando, ora a um estranho silêncio -como aqueles que temos quando estamos a pensar no nada. Filmado com câmaras especiais de 16 mm (as mesmas que Noé utilizou em “Irreversível”), Gallo vai nos intercalando uma visão muito distante e muito próxima, como o próprio personagem parece estar- a fazer qualquer coisa mas sempre com a cabeça sempre na sua amada. Depois partimos num “Road Movie”, muito diferente do habitual. Gallo vai se lembrando que ali já tinha passado com a namorada (Sevigny) enquanto tenta arranjar uma substituta. A verdade é que a personagem de Gallo está completamente perdida em si. Sabe o que quer mas não consegue e cai constantemente em contradições, ora pedindo a mulheres para o acompanhar, ora abandonando-as minutos depois. É a típica personagem do “só estou bem onde não estou”.
 
Porém se pensam que a forma como tudo é mostrado é fácil de digerir, enganam-se. O filme é maçudo e tem planos demasiado longos, demasiado instrospectivos e tremendamente abertos em que o que vemos é o que sentimos e não é nada que a personagem nos diga. Normalmente gosto deste género de filmes mas “The Brown Bunny” tem o mesmo problema com que classifiquei “É Mais Fácil um camelo”; é pretencioso. Gallo quis fazer uma obra “arty” e caiu num rídiculo excesso de caminho percorrido até a um final demasiado explícito (não só pela cena de sexo mas pela forma como tenta explicar tudo o que vimos até então). Posso mesmo dizer que a primeira hora de filme é completamente estranha. Parece que todas as cenas do filme são as chamadas “cenas apagadas” que vêm nos DVDs de qualquer lançamento do mercado. É estranha esta afirmação mas os takes são muito pouco convencionais e parece que são filmados forçadamente para darem essa ideia. Dou o exemplo em que Gallo visita a casa da namorada. Ela não está e toda a sequência é vista do interior da carrinha de Gallo para a porta da rua da jovem. Esquisito? Marca pessoal? Bizarra escolha…
 
Com isto tudo, e tanto umbiguismo, caímos no típico filme que quer chegar a um fio mas que pelo caminho pouco ou nada mostra, e que apresenta um ritmo digno do tempo mental do seu criador. Todo o caminho percorrido até rever a sua amada é um misto de imagens, sons e simbolismos, pois diálogos não há visto o jovem fazer o caminho sozinho. Se não conseguiram aguentar o já citado “Camelo” ou mesmo “Gerry” então esqueçam “The Brown Bunny”. Este filme é aquilo que chamo uma verdadeira apoteose de estados de alma e nem a famosa chamada para Tóquio consegue cativar. Numa coisa tenho de concordar. Há muita gente que, se o filme tivesse a assinatura de um homem com créditos firmados no cinema, iria ter orgasmos. Como é um autor novo, a querer marcar o seu espaço, dizimam-no. Eu confesso que não gostei mas dou o benefício da dúvida, pois até apreciei bastante a obra anterior do autor*; “Buffalo 66”. Agora “The Brown Bunny”? Digamos que não consigo apreciar tanta arrogância de métodos vestida a rigor com pele de cordeiro. Experimental? Certamente. Académico? Definitivamente. Polémico? Não tenham dúvidas. A Ver? Poupem-me… 3/10 Jorge C. Pereira
*O trabalho envolvente de Gallo neste filme é impressionante. Ele escreveu, realizou, produziu, fez a montagem de som e imagem, trabalhou os sets, guarda-roupa e caracterização… 

Crítica

O início de “ The Brown Bunny”, segundo filme do realizador/ produtor/actor/montador (entre outras funções) Vincent Gallo, começa em grande agitação. Bud Clay é um motociclista que vemos numa competição em New Hampshire fazendo voltas e voltas à pista. As constantes curvas, metáfora de uma desorientação vivencial do anti-herói.
 
Acabada a corrida, Bud inicia uma viagem para LA a fim de participar numa nova corrida. Aí as curvas dão lugar às intermináveis rectas e Gallo dá-nos um “road movie” lento construído em jeito de diário assombrado. Viagem de camioneta, com paragem em bombas de gasolinas, restaurantes chineses, lojas de animais e quartos de hotel. Um pouco excessivo. Pelo caminho vai encontrando várias mulheres com nomes de flores que o atraem, mas que são tão impetuosamente abandonadas como foram abordadas.
 
Apologia nilista, exercício de narcisismo despropositado ou uma obra sobre nada de especial. Este filme tem sido muito maltratado pela crítica. É é-o com certa razão. Sobretudo porque se trata de projecto tão pessoal que não conseguimos fazer o esforço de disassociação entre os demónios interiores da personagem de Clay e os do próprio Gallo. Terá Gallo sido vítima do seu próprio protagonismo ao anunciar com ligeireza que fazia tudo nos seus filmes ou revelando detalhes mais sórdidos sobre a sua vida pessoal?
 
Os grandes planos da cara e do corpo de Clay, a câmara subjectiva dão-nos um mundo filtrado por um desespero existencial e amoroso. Este é oficialmente atribuído à sequência narrativa e ao mundo da ficção, mas cedo dela extravasa para uma autobiografia interior à qual Gallo não consegue escapar, nem o espectador.
 
A sequência final do encontro de Bud com Daisy (Chloe Sevigny) que culmina num fellatio explícito tem chocado muitas almas puritanas por esse mundo fora. Ora, numa obra de desilusão e desencanto como é o caso, este acto não surge descontextualizado. È uma materialização de um desespero latente e é o culminar de uma sequência em crescendo dramático, que acaba por ser a melhor de todo o filme.
 
Apesar de certos planos nos serem apresentados de forma superior, o conjunto acaba por se revelar fraco. Saí triste do cinema porque após considerável espera pelo sucessor do brilhante “Bufffalo 66”, esperava uma obra mais madura, menos agarrada ao centro da vida de Vincent Gallo, ele próprio. 4/10 …. Carlos Natálio

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