‘Stray Dogs’ por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Em “Stray Dogs” estamos em Cabul após a vitória dos aliados. Aí, dois irmãos, um rapaz e uma rapariga lutam para sobreviver ao dia a dia.

Elenco

Gol Ghoti

Realizado por Marzieh Meshkini

Crítica

Com tanto lixo que actualmente chega aos cinemas nacionais, não deixa de ser curioso que “Stray Dogs”, filme da realizadora iraniana Marziyeh Meshkini, vá directo para vídeo. Na verdade, convenhamos que o cinema iraniano nunca teve muitos adeptos em Portugal, pois a maioria das pessoas faz uma associação ilógica imediata que deve ser uma “seca” intelectual qualquer.

Mas este género de observação não poderia estar mais errada, pois tal como “Osama”, outra vítima do sistema de distribuição nacional, este filme foge a metáforas ou pseudo-intelectualismos, e apresenta factos que para sempre ficarão como registos históricos.

Em “Stray Dogs” estamos em Cabul após a vitória dos aliados. Aí, dois irmãos, um rapaz e uma rapariga, salvam um cão de ser morto por um bando de crianças que crê que o animal é estrangeiro, e que por tal merece ser queimado.

Agora com uma nova companhia, estes dois percorrem a cidade em busca de alimento, roupa e uma forma de subsistirem. No fundo, estes dois jovens são vítimas de tudo o que está a acontecer no Afeganistão. O pai era talibã e está detido. A mãe tem o mesmo destino e arrisca-se a morrer pois contraiu um segundo matrimónio sem que o primeiro esposo tivesse falecido. Ora, tal como “Osama” já tinha focado, e seguindo as mais fundamentalistas tradições islâmicas, uma mulher que tenha um segundo marido é considerada uma adultera, e este é um dos crimes mais terríveis nesta sociedade.

“Órfãos” de pai e mãe, devido às circunstâncias, os jovens não têm ninguém a quem recorrer para poderem viver em condições, dormindo assim ao relento, num clima onde até o solo tem de ser queimado/aquecido para se poder enterrar os mortos.

Porém, os dois miúdos têm um amigo na prisão onde está a mãe, o que lhes permite ocasionalmente pernoitarem no estabelecimento. Mas uma decisão do novo Governador vai impedi-los de ter “uma casa” onde ficarem, o que neste caso significa que ficam proibidos de dormirem na prisão. Com a ida do pai para Guantanamo, e a inevitável morte da mãe por adultério, só resta a estes jovens uma forma de sobreviverem: roubarem, serem detidos e poderem ir para a prisão por pleno direito.

De acordo com Marziyeh, a ideia para este filme surgiu em 2002, quando viajava pelo Afeganistão em busca de locais para filmar “At Five in the Afternoon” de Samira Makhmalbaf, e no qual foi assistente de realização. Numa dessas deslocações, Marziyeh visitou uma prisão em Cabul, onde descobriu que muitas crianças optam por viver como prisioneiras ao lado das suas mães. A opção justifica-se pelo facto de muitas delas serem órfãs, e não terem outro local para onde ir, senão a prisão. Pernoitam com as mães, e na manhã seguinte saem para “ganhar” algum dinheiro fora da prisão, que lhes garante a sobrevivência. “A partir desse momento, a história destas duas crianças começou a ganhar contorno”, garantiu Marziyeh Meshkini. A realizadora, casada com o igualmente realizador Mohsen Makhmalbaf (“Kandahar”), estreou-se em 2000 com o drama “The Day I Became a Woman”. O filme, que retratava as diferentes fases da vida de uma mulher no Irão, foi bem recebido pela crítica, tendo conquistados diversos galardões em certames cinematográficos.

Mas mais que o filme político, ou mesmo histórico deste período difícil no Afeganistão, “Stray Dogs” é um verdadeiro drama, onde a condição humana é estudada minuciosamente, e tudo nos confronta como um verdadeiro choque cultural.

Para além disso, o filme demonstra muito conhecimento nas formas como cinema se articula, não o seguindo, nem sendo um escravo da execução, mas prestando uma homenagem sem nunca perder de foco a humanidade das personagens.

Assim, e até mais que “Osama”, “Stray Dogs” é uma lição sobre o homem, o islamismo e as consequências e danos colaterais de um conflito armado, politico, religioso e acima de tudo cultural.

Os derradeiros momentos, onde é chamado o “Ladrão de Bicicletas” de De Sica, são fantásticos, e de uma inocência tão grande como as dificuldades que o duo de irmãos enfrenta no dia a dia.

E com isto, Marziyeh consegue um filme histórico, onde o lado humano triunfa, mas não de forma completamente unidimensional, ou puramente metafórico, como forma de sobrepor o “cinema” a tudo o que é contado. … 8/10 …. Jorge Pereira

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