“La Niña Santa” por Carlos Natálio e Rita Almeida

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

É Inverno em La Cienaga. Depois dos ensaios do coro, as raparigas juntam-se na igreja local para discutir a fé e a vocação. Amalia e Josefina têm dezasseis anos. No meio das conversas, sussurram em segredo sobre beijos. Josefina é de uma família provinciana conservadora. Não muito longe da casa de Josefina fica o Hotel Termas, que pertence à família de Amalia e onde esta vive com a mãe, Helena, divorciada, e com o resto da família. Um encontro casual entre Amalia e o Dr. Jano, que está no hotel para assistir a uma conferência, faz com que a rapariga encontre finalmente a sua verdadeira vocação – salvar um homem do pecado. O Dr. Jano vai ser apanhado numa teia de boas intenções. O mundo respeitável do médico de província está à beira do colapso.

Elenco

Mercedes Morán (Helena), Carlos Belloso (Dr. Jano), Alejandro Urdapilleta (Freddy), María Alche (Amalia), Julieta Zylberberg (Josefina), Mía Maestro (Inés), Marta Lubos (Mirta), Arturo Goetz (Dr. Vesalio), Alejo Mango (Dr. Cuesta), Mónica Villa (Madre de Josefina)

Realizado por Lucrecia Martel

Critica

A segunda curta metragem de Lucrécia Martel, “La Nina Santa” é uma lição de subtileza na qual, de forma esclarecedora, se vão unir dois universos canonicamente opostos: a religião e a sexualidade.

Amália (a belíssima María Alche) é uma jovem que vive com Helena (Mercedes Móran) a sua mãe divorciada, num hotel de ambas, local por onde passam inúmeras pessoas. A adolescência, vive-a de momento dividida entre decorar o catecismo e perceber qual a natureza da verdadeira vocação religiosa e os desejos inconfessáveis que o seu corpo exige. É neste período contraditório da vida de Amália que um desconhecido se pressiona contra ela na rua quando assiste a um concerto. Mais tarde vem a saber que se trata de Dr. Jano, um médico que participa num congresso de medecina que está a decorre no seu hotel. Amalia decide então confrontar secretamente o médico com o acontecido. E aqui ficamos no fio da navalha pois se de um lado a regeneração do pecado do homem parece um objectivo prosseguido pela “santa” Amália. Por outro lado, Amália é também uma pecadora, uma “Lolita” interior, apenas aflorada, que entrevemos durante a progressão da obra. É precisamente essa progressão, em muitos pontos imperceptível, que vai carregando os personagens de um peso, próximo de um estigma religioso. Carregam com um destino que é seu mas que também é simultaneamente dos demais personagens. O ponto forte está precisamente nessa progressão muito teatral das personagens e na pulsão sexual que se vai instalando entre os protagonistas. Entre Dr. Jano e Amália, entre Dr. Jano e Helena e entre a melhor amiga Josefina e Amalia. Curiosa a relação entre estas duas personagens. Por um lado melhores amigas, por outro “irmãs” mas mais uma vez fica entreaberta uma complexidade mais íntima entre as duas.
E coincidência ou não, ou não fosse o fime co-produzida pelo “El Deseo” de Pedro Almodóvar, no final a ironia dos acontecimentos vai atingir patamares tão elevados que só um final surpreendente permitiria ofuscar o óbvio. Tudo se encaminha para uma perfeita tragédia onde o clímax espera no final. Ou não.
Filme difícil mas de uma mestria inegável. 8/10 Carlos Natálio

Critica

Precedido pela enorme expectativa que gerou a extraordinária primeira longa-metragem da argentina Lucrecia Martel, “La Ciénaga”, chega agora “La Niña Santa”, um filme que mistura o místico e o erótico.

Se o primeiro se destacou pela marcada importância das atmosferas, sem uma história “forte”, trazendo ao espectador uma forma diferente de viver a experiência do cinema; este vem dar evidência aos olhares e aos rostos, que ambiguamente transmitem sentimentos em substituição das palavras. Aqui a mestria de Martel continua intacta e foi até um pouco mais longe.

Amalia (Alche) é uma adolescente ansiosa por receber um sinal de Deus e acredita identificar a sua missão divina na conversão de um homem (Belloso) que a aborda em plena rua, com uma intenção nitidamente sexual. Mais tarde, Amalia acaba por descobrir que este homem é um dos médicos do congresso que tem lugar no hotel onde vive com a sua mãe (Morán).

A fé toma aqui o lugar de uma pequena obsessão. Na adolescência todos nos consideramos os donos do mundo e seguimos cegamente, sem questionar, as ideias dos nossos ídolos. Como se cantasse a canção do seu grupo preferido, Amalia reza automaticamente, debitando orações decoradas.

Mas o ambiente indolente e desordenado de “La Ciénaga” perde muito do seu sentido neste filme, tornando-o inclusivamente aborrecido. Martel distancia-se tanto dos seus personagens, olhando-os de fora e sem julgamentos, que impede que nos aproximemos ou identifiquemos com eles, ou que compreendamos as suas motivações.

Martel recusa-se a evidenciar a atracção de Amalia por Jano (Belloso), a fazer dela uma Lolita; recusa-se a expressar claramente a atracção simultânea de Jano por Amalia e por Helena (Móran); recusa-se a libertar Helena na paixão. Deixa-nos sempre no limbo das possibilidades, quando na vida não é disso que se trata, mas sim de escolhas.

Na ânsia de marcar os dilemas religião vs. ciência; fé vs. agnosticismo; “visão” vs. “surdez”, Martel acaba por reduzir cada um dos personagens a meros instrumentos cirúrgicos, impedindo-os de serem humanos. Tal como Jano, Martel roça, mas não se compromete. Esquiva-se, deixando-nos a sensação de termos sido usados para o seu prazer. Só nos damos verdadeiramente quando nos comprometemos e, aqui, Martel fica-se por uma relação superficial, sem grandes sentimentos. 6/10 Rita Almeida

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