“Atash” por Carlos Natálio

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Já passaram dez anos desde que Abu Shukri e a sua família se instalaram num vale, no meio do nada, longe da sua terra natal. Completamente independentes, vi-vem do carvão que produzem. Apenas o pai e o filho contactam com o mundo exterior: o pai vai à vila vender o carvão enquanto o filho vai à escola. A mãe e as duas filhas queimam continuamente madeira. Abu Shukri, o pai, trouxe-os para este local contra a sua vontade e sabem que a razão porque deixaram a vila é a mesma que os leva a nunca mais poder voltar. O pai decide construir um canal para trazer água para a rústica ca-sa em que vivem. As mulheres ficam desconfiadas, o filho não liga nenhuma, mas a água a correr desperta o instinto de liberdade de todos e assinala o início do colapso explosivo e trágico desta família.

Elenco

Hussein Yassin Mahajne (Abu Shukri), Amal Bweerat (Um Shukri), Roba Blal (Gamila), Jamila Abu Hussein (Halima), Ahamad Abed El Gani (Shukri)

Realizado por Tawfik Abu Wael

Critica

A sessão competitiva do festival Indie Lisboa 2004 começou com “Atash”, a primeira longa metragem do realizador palestiniano Tawfik Abu Wael, que lhe valeu o prémio da crítica na semana dos realizadores em Cannes este ano.

“Atash”, antigo símbolo de verdade e energia vital, é um filme que acompanha a vida de uma família palestiniana que devido a um acontecimento obscuro do passado se “refugiou” na periferia da sua anterior cidade. A família composta pelos pais, um filho e duas filhas tem como meio de subsistência a produção e venda de carvão vegetal.
Quando o chefe de família, Abu Shukri (Hussein Yassin Mahajne) resolve usar as poupanças da família para construir um sistema de canalização ilegal que lhes proporcione água potável, uma tensão crescente entre os membros da família vai-se instalando, ao ponto de se pode falar de uma quase rebelião. A mulher questiona a opção do marido, o filho quer conquistar a sua independência (sendo que o pai tenta afastá-lo da escola dando primazia ao saber tradicional) e as filhas tentam escapar da posição de subalternidade em que vêm vivendo. Tawfik acaba por apresentar uma obra cujo argumento aponta em várias direcções mas ficando a meio caminho em quase todas elas. Fica do âmago da história somente as personagens de grande densidade psicológica e um olhar sobre uma possível modernização do ambiente familiar dos palestinianos. Tudo o mais são meras alusões.
Numa tendência recente de algum cinema árabe, o filme procura através de uma história simples (diria mesmo, a espaços, desinteressante) dar-nos por um lado um retrato do seu modo de vida, mas acima de tudo utilizá-la como alegoria para falar de questões mais graves. A metáfora da água como símbolo de vida quer abordar aquilo a que muitos outros filmes semelhantes aludem: o conflito israelo-árabe. Fica por provar a adequação da imagem utilizada. A água surge também associada ao desejo de liberdade dos membros da família que desejam desamarrar-se do jugo do chefe de família, mas também das suas arreigadas tradições conservadoras.
Obra de ritmo lento, onde um olhar contemplativo e baço empreende jogos muito interessantes a nível técnico, designadamente explorando a falta de profundidade de campo de muitos planos.
Os actores não profissionais surpreendem pela positiva e o final hábil é uma das boas surpresas do filme. 6/10 Carlos Natálio

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