Sinopse
Ruthie e a sua filha Or, de 17 anos, vivem num pequeno apartamento em Tel-Aviv. Há 20 anos que Ruthie se prostitui, sem que a filha consiga fazê-la desistir dessa vida. O quotidiano de Or é preenchido com pequenos trabalhos: lavar escadas ou pratos num restaurante, recolher garrafas na praia. Ao mesmo tempo, tenta ir à escola sempre que pode. Mas a saúde de Ruthie está a piorar e, depois de ver a mãe no hospital, Or decide que não a deixará mais regressar à vida da rua. Desta vez, será ela a tomar conta da mãe.
Elenco
Ronit Elkabetz (Ruthie), Dana Ivgy (Or), Meshar Cohen (Ido), Katia Zimbris (Rachel), Shmuel Edelman (Shmuel)
Realizado por Keren Yedaya
Critica
Se o primeiro filme apresentado na secção competitiva era palestiniano (“Atash”), na segunda sessão passamos para o lado de lá da barricada com “Or (Mon Tresor)”, de Keren Yedaya, uma co-produção isrealo-francesa.
Este drama de um realismo por vezes dilacerante entra na vida de uma adolescente, Or (Dana Ivgy) que durante o natural processo de crescimento sentimental e sexual se vê obrigada a ser mãe da sua própria mãe. Ruthie (Ronit Elkabetz) é uma mulher vencida pela vida que após vários anos de prostituição se queda num hospital psiquiátrico. É com o seu regresso esperançosamente regenerador que se inicia o filme. A filha trata da mãe, diz-lhe o que há-de fazer, arranja-lhe um emprego normal e impede-a de “sair” para as ruas novamente. Mas o que inicialmente parece correr bem, complica-se.
A carga dramática de toda a obra traduz-se em cenas muito fortes mercê das fabulosas interpretações da dupla de protagonistas. Num universo fechado às demais personagens, o que Keren Yedaya faz é pegar na convencional relação mãe filha e decompô-la e distorcê-la por completo ante o peso cruel da realidade. Também interessante é verificar como em “Or” o rumo dos acontecimentos e das personagens se altera sem justificativas, sem cedências, tal como na realidade.
Todo este realismo que produz um filme irrespirável pode ver-se tecnicamente num uso incessante de planos fixos e nestes a exploração do espaço invísível ao espectador é muito bem conseguido.
Nota menos positiva prende-se com o facto da obra se arrastar um pouco nos minutos finais. Apesar de por definição todas as narrativas serem intermináveis há que saber largar as personagens quando não existe aparentemente mais nada para ver ou dizer. Destaque ainda para a simbologia de alguns aspectos que ilustram o evoluir da história. Como é por exemplo a relação que ao longo do filme, Or mantém com o tabaco ou a ligação entre a filha, o namorado e os outros rapazes.
Esta agradável surpresa valeu a Keren Yedaya nada menos do que cinco prémios na mais recente edição do festival de Cannes: o prémio “Le label regard jaune”, o Grande Prémio da Crítica, a Câmara Dourada, um prémio na área do argumento e ainda a ecolha dos jovens críticos no festival.
Recomendado especialmente a apreciadores do género drama. 7/10 Carlos Natálio