“Feaux Rouges” por Nuno Centeio

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Paris, Verão, fim de semana de partida de férias. Um casal, Hélène e Antoine, prepara-se para ir ter com os filhos, no Sul de França. Hélène está atrasada. Antoine bebe enquanto espera por ela. Depois, no carro, exasperado com o calor e com os engarrafamentos, Antoine decide sair da auto-estrada e vai fazendo pausas nos bares. O casal discute violentamente. Hélène resolve continuar a pé, sozinha, de noite. Enquanto a polícia persegue um criminoso em fuga, Antoine, em busca da mulher, encontra um estranho indivíduo…

Elenco

Jean-Pierre Darrousin, Carole Bouquet, Vincent Deniard, Charline Paul, Jean-Pierre Gos

Realizado por Cédric Kahn

Critica

Jean-Pierre Darroussin, actor com larga experiência no cinema (“Ah! Se Eu Fosse Rico” foi a sua última incursão nos ecrãs lusos) é um verdadeiro monstro da representação. Para quem ainda tivesse qualquer dúvida, aí está “Feux Rouges”, a experiência radical de um homem à deriva pela noite, o álcool, a busca infrutífera da mulher (com a qual discutiu), ou a boleia a um desconhecido com comportamentos bizarros. Enfim, toda uma espiral de acontecimentos que transformam este filme num dos melhores “one-man-show” produzidos desde há bastante tempo.

A premissa é muito simples. Darroussin é Antoine, um homem cuja inferioridade face à mulher é reprimida (sexual, social e profissionalmente). Num dia de muito calor, daqueles que podem levar qualquer homem a transbordar para a ruptura emocional (lembram-se de “Um Dia de Raiva”?), Antoine inicia uma discussão com Hélène (a bela Carole Bouquet) que o levará por uma geometria sinuosa de estradas secundárias, como escape aos engarrafamentos das auto-estradas plenas de veraneantes, e a um consumo desenfreado de alcool para poder encarar toda a contenda com a sua mulher, com uma força que lhe é incomum no dia-a-dia.

Após algumas paragens sucessivas em bares de estrada pouco recomendáveis, Hélène faz um ultimato ao marido, ameaçando abandoná-lo na estrada e partir sozinha. Antoine, febril de irracionalidade, rouba a chave do carro e entra em outro bar. Quando regressa, a mulher já partiu. É a partir daqui que começa a faceta mais “hitchcockiana” da história. Os holofotes estão agora voltados inteiramente para a personagem de Darroussin, preso entre a dúvida, a culpa, o medo, a curiosidade, a mesquinhez, e todo um rol de sentimentos que o actor transporta para a personagem de uma forma tão suave e perfeita, que o impacto no espectador é sentido como um elemento adjacente ao exercício de acompanhamento narrativo. Ou seja, a pouco e pouco somos levados a entrar neste mundo de um pequeno homem irritante e irritado, mas apenas um homem, que afinal passou um dia mau.

Pese o final da história ser algo previsível, a sua força assenta toda nesse mesmo facto, o que pode parecer estranho. Na realidade, à medida que vamos acompanhando o tormento e as dúvidas de Antoine, começamos a sentir os mesmos receios que o personagem tanto teme para um destino que se avizinha inevitável.

Um “thriller” de meter no bolso muito do que se tem feito do lado de lá do Atlântico nos últimos anos (o argumento é baseado num romance de 1953 do famoso escritor belga Georges Simenon) , ainda mais se tivermos em conta que a experiência algo “road-movie” da fita foi inteiramente filmada em estúdio, revelando uma realização muito eficiente, com uma fotografia a condizer. Se o leitor sentir alguma “francofobia” quando chega a hora de escolher um filme no cinema, aqui fica a sugestão: dêem uma oportunidade a “Feux Rouges”.

A Não perder. 8/10 Nuno Centeio

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