“Exils” por Nuno Centeio e Cátia Simões

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Naïma, filha de imigrantes magrebinos, e Zano, filho de “retornados”, dois jovens dos dias de hoje que vivem em Paris e se sentem exilados na sua própria cidade, decidem um dia, como que num desafio, regressar à terra das suas origens remotas: a Argélia.
No caminho fazem o trajecto inverso àquele que leva tantos desesperados do Sul para o Norte: Sul da França, Andaluzia, Marrocos, Argélia. De descoberta em descoberta, de uma batida techno a uma canção em flamenco, Zano e Naïma encontrarão, no fim da viagem, a promessa de uma reconquista de si mesmos.

Elenco

Romain Duris, Lubna Azabal, Leila Makhlouf, Habib Cheik, Zouhir Gacem

Realizado por Tony Gatlif

Critica

Se mencionar o nome Romain Duris, poucos em Portugal o reconhecerão. Mas se a esse nome relacionar a figura de principal protagonista em “A Residência Espanhola”, obra afamada de Cédric Klapisch, então a maioria dos leitores irão se lembrar do jovem estudante do programa Erasmus, algo tímido a princípio, que pouco a pouco descobre as maravilhas de Barcelona. De obras mais abrangentes ao grande público, para outras de circuitos mais autorais e alternativos, Duris viaja com uma singular sabedoria para um jovem actor, mantendo um “quase-pacto” de lealdade com dois ou três realizadores. Klapish é um deles (além do filme mencionado, já rodou mais quatro com o realizador, e aguarda-se para o próximo ano em França a prequela da Residência Espanhola, “Les Poupées Russes”).

Outro dos seus “habituées” é Tony Gatlif, realizador cigano de origens Andaluzas, nascido na Argélia e revelado no cinema em França, o país que o acolheu para estudar cinema e arte dramática.
“Exils” é uma viagem muito pessoal de Gatlif, onde Romain Duris encarna um personagem que poderia muito bem ser o próprio realizador, dada a sua história pessoal. Zano (Duris) é filho de “retornados” da Argélia. Naïma (a actriz Lubna Azabal), sua companheira, é filha de imigrantes magrebinos. Num assomo de inconformismo, loucura, ou simples “joie de vivre”, Zano desafia a jovem para partirem em busca das suas raízes, remando contra a maré. Ou seja, enquanto meio mundo ruma à Europa para atingir um nível de vida que o Magrebe não lhes pode oferecer, o casal decide partir a caminho de um outro mundo que lhes é completamente desconhecido. Impregnados de pequenos vestígios ocidentais (o walkman que acompanha Naïma ao longo do filme é um exemplo paradigmático), ambos procuram não se sabe bem o quê, algo que lhes consiga apagar um incêndio interior da alma, um medo pela falta de valores ou raízes a que se possam agarrar.
Se o personagem de Duris é brilhante (espantem-se com o trabalho do actor, depois do jovem estudante de economia que todos conhecem da Residência Espanhola), o da sua colega Lubna Azabal demarca-se, viaja por etapas emocionais sucessivas de forte impacto no ecrã, desde a rebeldia própria de uma mulher eroticamente protegida, a um esbarrar com os trajes longos e escuros da cultura árabe, e particularmente muçulmana, que encobrem a sua maior arma: o sexo. A viagem dos dois passa por paisagens do sul de França, da Andaluzia espanhola, de Marrocos, e só no fim pela tão aguardada Argélia. É um “road-movie” sem estrada, inebriado pelos cantares ciganos, a música étnica, e o techno mais evoluído das pistas de dança. “Exils” é mais que um simples filme. É uma experiência musical, um transe que Gatlif induz no espectador com uma precisão diabólica, e que lhe valeu o prémio de melhor realizador em Cannes 2004, ano da militância de Moore e do presidente de júri Tarantino.
A espaços, o filme chega mesmo a se confundir com um musical. O final revela um processo de exorcismo (literal) das personagens absolutamente estonteante, embora algo longo e desequilibrado para o que a fita nos transmitira até então. Mas se o cinema fosse todo assim, as pessoas viveriam eternamente apaixonadas. 9/10 Nuno Centeio

Critica

Naïma e Zano. Jovens. Apaixonados. Franceses sem se sentirem franceses. Um dia, cansados de viverem uma vida com a qual não se identificam, num país que não sentem como seu, resolvem partir para a Argélia, onde viveram muitos anos os pais de Zano. Partem à procura de recordações, sem dinheiro e sem medos.

Pelo caminho, perdem-se em Andaluzia, Sevilha, Marrocos. Trabalham para prosseguir a viagem. Divertem-se, zangam-se, desesperam e amam-se. Conhecem, conversam, dançam, escutam. Não abandonam a música que gostam (levando sempre os seus walkmans) mas não fecham a alma à música dos lugares que percorrem. Porque, no fundo, temos espaço para tudo dentro de nós. Naima e Zano descobrem isso já na Argélia, ao som de música, onde encontram a sua espiritualidade e uma calma que nunca tinham conhecido.

Este é um filme de viagens. Uma viagem física, que atravessa países. uma viagem espiritual, que sobrevoa mundos. O filme está cheio de pequenas metáforas de busca de identidade, embora as duas personagens pensem que já se conhecem. Zano assume-se como rebelde mas também introspectivo. É de salientar a prestação de Romain Duris, conhecido do público português pelo papel de protagonista em “A residência espanhola”. Naima renega durante muito tempo a sua descendência magrebina e assume-se como “femme fatal”, uma mulher que transpira sexo por todos os poros do seu corpo e que se orgulha de fazer disso a sua arma. Lubna Azabal encarna na perfeição esta personagem, mudando de humor e personalidade de um momento para o outro, mas sempre com grande coerência. Ao longo do filme, vamos vendo a evolução das personagens, sempre pautada pelo ritmo das diferentes músicas que envolvem a película. Sevilhanas, música cigana, tecnho agressivo, rock pesado e música étnica, tudo tem o seu lugar, perfeitamente escolhido, tudo se mistura e confunde até explodir num clímax insurecedor, cheio de sons, de ritmos, de gestos e de cores.

Francês, este filme? Não. este filme é de todos os países. Espanhol, cigano, marroquino, argelino. Com elementos típicos de cada país, ligados a emoções típicas de cada país. Este é um filme internacional que nos leva a conhecer outros mundos que preferimos ignorar, outras realidades que preferimos pensar que não existem. mas somos transportados de uma forma tão subtil que, quando damos por nós, já estamos envolvidos na música, nas sensações das personagens e na mistura de cores feita pelo realizador. Já é demasiado tarde para retroceder. E o coração bate ao ritmo dos tambores e dos cânticos argelinos que fazem vibrar o ecrã… simplesmente imperdível.…9/10 Cátia C. Simões

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