Dois talhantes descobrem que há carnes melhores que outras, e essa descoberta pode conquistar toda uma clientela para o seu estabelecimento. O argumentista de dois filmes “Dogma 95” (“Mifune”, 1998 e “The King is Alive”, 2001) Anders Thomas Jensen assina aqui a sua segunda realização, uma hilariante comédia, com muito… mas mesmo muito humor negro.
Elenco
Mads Mikkelsen, Nikolaj Lie Kaas, Line Kruse
Realizado por Anders Thomas Jensen
Critica
O dinamarquês Anders Thomas Jensen tem sido ao longo destes últimos cinco anos um representante empenhado do movimento Dogma. A comprová-lo o brilhante “Mifune” e o algo subestimado ”The King is Alive”. Mais recentemente escreveu “Wilber Wants to Kill Himself” que teve estreia entre nós. Mais uma vez explorando o ser humano em situações de fraqueza emocional, apresenta “The Green Butchers”, vencedor da edição deste ano do prémio de melhor realizador e melhor filme, na semana dos realizadores no Fantasporto.
Svend (Mads Mikkelsen) e Bjarne (Nicolaj Lie Kaas) são dois dinamarqueses de feitio difícil que sempre viveram ligados ao negócio da carne. Fartos de ser enxovalhados pelo patrão resolvem abrir em parceria um talho. A inauguração com pompa e circunstância, mas sem clientes, parece auguriar uma rotundo fracasso do negócio. Quando, por acidente, um electricista morre congelado na câmara frigorífica e Svend resolve cortar uns lombinhos da sua coxa e misturá-los na sua marinada, o impensável acontece. A carne faz sucesso e a negócio passa a ir de vento em popa.
As premissas são de uma comédia muito negra mas que no fundo esconde um drama tão ou mais carregado pois se Svend começa a cometer actos tresloucados é porque não tem grande noção da realidade e sobretudo porque pensa que pode justificar o presente com o passado sofrível. Por seu lado, Bjarne que parece ser mais sólido psicologicamente, sabemos depois estar em recuperação psicológica de um período de loucura temporária perante o choque da perda de sua mulher. Mas se as personagens andam a braços com o seu passado fazem-no num contexto tão inusitado que não podemos deixar de sorrir. Sven com uma testa até metade da cabeça e que sua como se não existisse amanhã, Bjarne um misantropo fumador compulsivo de charros que resolve os seus problemas com caneladas e ainda Astrid, ajudante de coveiro que quando quer reflectir vai para junto do crematório… são apenas alguns exemplos do ambiente bizarro que compõe esta Dinamarca de Jensen.
As representações são um dos pontos fortes. Mats Mikkelsen que ganhou mesmo o prémio de melhor actor no fantasporto, compõe na perfeição um jovem obcecado pela sua “carreira” e de personalidade maníaco depressiva, pondo-se às vezes ao mesmo nível de Egil, o irmão gémeo deficiente de Bjarne. Nicolaj Kaas, que já conhecíamos de “Idioterne” (1998) de Lars Von Trier onde era um “falso” deficiente aparece aqui num duplo papel (os irmãos gémeos) também ele em grande forma. A dupla já se tinha revelado dramaticamente eficaz em “Open Hearts”(2003) a obra anterior de Jensen.
Num crescendo de ganância (observemos a obsessão pelo verde, a sua cor) e loucura que parece apoderar-se dos actos dos dois, o final acaba por ser engenhoso e belo. A realidade impera. Obra muito agradável, no qual “Delicatessen” teria um parente nobre. 8/10 Carlos Natálio
Critica
“The Green Butchers” é uma deliciosa ( palavra que neste filme soa mal) comédia dinamarquesa sobre dois homens que decidem abrir um talho e encontram uma forma muito peculiar de atrair clientes.
Sven e Bjarne são dois talhantes que decidem abandonar o irritante patrão e montar o seu próprio negócio. O preço são dois milhões e ambos contribuem com metade para essa causa, que os irá levar à fama.
Tudo começa quando Sven, um homem com um enorme complexo de inferioridade, fecha acidentalmente um electricista numa das arcas congeladoras do novo talho. No dia seguinte, Sven descobre que o homem está morto. Em pânico, e muito irritado com o antigo patrão (que o visita para gozar com a falta de clientes), ele corta uma das pernas do electricista e vende a sua carne como “Fatiazinhas de Frango”. A carne, devidamente marinada, com uma receita de Sven, é um sucesso e rapidamente o talho se transforma num local de culto e de compras por quase toda a gente da localidade.
Há então que arranjar novos corpos, pois Sven vê-se pela primeira vez amado e não suporta a ideia de perder a clientela.
Do outro lado da barricada temos Bjarni, um jovem em sofrimento, que perdeu a namorada devido a um acidente que o seu irmão- deficiente mental- provocou. Agora um vegetal, o irmão de Bjarni é a única forma de este homem arranjar o milhão que precisa para o negócio do talho. A única coisa que tem de fazer é dizer no hospital “desliguem a máquina do meu irmão”. E assim é.
Surge então um problema. O seu irmão, no preciso momento em que vão desligar a maquina que o prende à vida, reage e desperta. Há muito de Mifune (filme III do manifesto Dogme 95, que teve o argumento do realizador desta película- Anders Jensen) na personagem do irmão de Bjarne. Se o outro tinha o nome devido ao fascínio por uma brincadeira de crianças, que evocava o actor japonês Toshiro Mifune, este tem uma estranha relação com os animais e basicamente adora-os. Pelo meio ainda temos uma jovem moça que vive com um homem que, coitado, tem uma história semelhante aos protagonistas do filme “Alive” . Essa rapariga rapidamente se transforma no objecto de desejo de Bjarni que, por sua vez, anda cada vez mais preocupado com a louca veia assassina do seu sócio Sven..
Diga-se de passagem que “The Green Butchers” é tremendamente hilariante. A forma como as histórias se articulam, as personagens evoluem e os diálogos são conduzidos levam um riso natural, que até nos provoca alguma consternação (como as anedotas mórbidas). As performances são fantásticas e não foi à toa que o filme venceu a Semana de Realizadores do último Fantasporto.
Para quem quer se divertir, de forma bem negra, “”The Green Butchers” é o ideal.
Bom apetite!! 9/10 Jorge C. Pereira

