Sinopse
É a história de um rapaz, Ignacio (Gael García Bernal), que estuda num colégio interno católico e sofre um contínuo abuso sexual por parte do professor de literatura, o Padre Manolo.
O rapaz está apaixonado por Enrique, que é expulso do colégio e ambos só se voltam a se ver anos mais tarde. Ignacio acaba por se tornar um travesti e adopta o nome de Zahara, que imita Sara Montel. Escreve uma história sobre a sua infância, intitulada de “A Visita”, que depois pedirá a Enrique, que entretanto se tornara um consagrado realizador, para a adaptar ao grande ecrã.
Elenco
Gael García Bernal, Fele Martínez, Javier Cámara e Leonor Watling
Realizado por Pedro Almodóvar
Crítica
Absolutamente chocante, totalmente irreverente e indescritivelmente belo. É muito difícil descrever e analisar La Mala Educación, a nova película de Pedro Almodóvar. O tema não é fácil de suportar e o modo como é relatado torna o filme quase doentio. Mas há algo de genial, um toque de mestre que acaba por tornar a película suportável e apreciável.
É a história de um rapaz, Ignacio (Gael García Bernal), que estuda num colégio interno católico e sofre um contínuo abuso sexual por parte do professor de literatura, o Padre Manolo.
O rapaz está apaixonado por Enrique, que é expulso do colégio e ambos só se voltam a se ver anos mais tarde. Ignacio acaba por se tornar um travesti e adopta o nome de Zahara, que imita Sara Montel. Escreve uma história sobre a sua infância, intitulada de “A Visita”, que depois pedirá a Enrique, que entretanto se tornara um consagrado realizador, para a adaptar ao grande ecrã. Pelo meio, muitas mentiras se dirão, o passado vai-se descobrindo aos poucos e os fantasmas provam que na verdade são eternos.Toda a película gira em torno da sexualidade. Seja ela em termos de pedofilia, homossexualidade ou transsexualidade. Almodóvar aborda um tema chocante e não o aborda de modo suave. A película é toda rodada de modo a chocar continuamente o espectador, a deixá-lo sem fôlego e até mesmo indisposto… Tudo está enquadrado perfeitamente, de modo a enrodilhar o espectador numa pesada teia de sentimentos contraditórios. A pedofilia nunca é um tema agradável. O travestismo não é visto com bons olhos. A homossexualidade não se quer ver de modo tão directo… é por isso que Almodóvar choca do início ao fim e nos deixa sem respirar. A maneira como realiza a sua película prima, mais uma vez, pela mestria dos planos, pelas cores fortes, fantástica fotografia e belíssimo enquadramento sonoro. Os figurinos estão perfeitos, graças à participação de Jean Paul Gautier, retractando perfeitamente a década de 80. Também a maquilhagem faz milagres, transformando homens feitos em verdadeiras musas. De realçar a colagem feita, nesta película, entre passado e futuro, entre realidade e ficção, entre verdade e mentira. Confundidos e emaranhados na teia criada por Almodovar, acabamos caindo desamparados quando ele nos revela, com mestria, o seu final apoteótico…
A direcção de actores é simplesmente fantástica. Bernal brilha, quer na pele de homem quer de mulher. Representa simultaneamente na película de Almodóvar e na de Enrique, e as suas alterações de expressão, as suas metamorfoses ao longo de todo o filme e os meios que usa para atingir os fins deixam-nos totalmente estarrecidos e de olhos fixos no ecrã. Realmente a sua interpretação deixa-nos de coração nas mãos e o que nos revela é demasiado forte, pesado e duro para que o consigamos entender e assimilar de imediato. Simplesmente sublime! Notável o seu amadurecimento desde “Y tu mama también” e é impressionante como revela totalmente o seu lado feminino… Enrique (Fele Martinez) é um tipo de homossexual diferente, mas que nos deixa também um pouco inquietos e desconfortáveis com a força do seu olhar e a sua interpretação sóbria e séria. Ambos, neste filme, mostram o seu carácter marcado pelos abusos sexuais, numa forte crítica à Igreja Católica que chocará muita gente. De realçar, como personagem secundária, Javier Camara, que nos fascinou em Hable con Ella. Aqui, é amigo de Zahara e dá um toque cómico à película. É uma pena que apareça tão pouco… O padre Manolo, na pele de qualquer um dos actores que o representam, é uma figura assustadora e ao mesmo tempo enternecedora, pela maneira como se comove ao ouvir Ignacio cantar, pelo modo como ama em silêncio um menino de 10 anos. No fundo é um monstro, mas crê unicamente que o que faz é para o bem da criança.
Almodóvar foi muita s v ezes criticado por fazer filmes unicamente sobre mulheres. Desta vez, a película é predominantemente masculina. A única presença feminina é a da mãe de Ignacio, que aparece por breves instantes, para além da presença assexuada de Zahara. Com este filme, Almodóvar pretende mostrar que é possível o amor entre homens, a loucura e o desequilíbrio no sexo masculino. Bernal encarna uma personagem quase divina, que exerce fascínio sobre todos os homens que o rodeiam. Deparamo-nos com um mundo masculino mas profundamente sexual, demasiado explicito e brutal para o que estamos habituados. Histórias paralelas cruzam-se e criam labirintos de difícil saída para quem vê…
Uma película que, sem dúvida, não se deve perder. Guiada pela mão de mestre de Almodóvar, um tema tão complexo e muitas vezes mal visto torna-se suportável. Não é um filme que nos deixe indiferentes. Desde a crítica social ao modo como é tratado o tema sexual e até mesmo onde nos leva a ambição, Almodóvar não deixa nada ao acaso.
10/10 Cátia C. Simões
Crítica
“La Mala Educación”, é possivelmente o mais Almodóvar de toda a filmografia do realizador espanhol. Decididamente um filme íntimo e pessoal, e que Pedro faz questão de esclarecer, não ser autobiográfico. Mesmo assim, é nesta proximidade que está a sua singularidade. Perde-se a sensibilidade feminina de outros filmes, mas não aquele toque pessoal e irreverente que o espanhol coloca em tudo o que faz.
O argumento já estava escrito há algum tempo, mas Pedro Almodóvar rescreveu-o e alterou-o inúmeras vezes dada a multiplicidade de combinações, e destinos possíveis para os três personagens centrais. Mas chegou a altura de o concretizar, “tinha de o realizar antes que se tornasse uma obsessão”, refere o realizador.
E se o passado nos bater á porta? E se três personagens que a vida separou se voltassem a encontrar? O reencontro é a altura de saldar dívidas, e isso marcará para sempre o destino dos seus intervenientes. A temática não é agradável, pedófilia, abuso sexual de crianças por membros da igreja, heresia dirão alguns, constrangedor dirão outros. Mas aqui Almodóvar faz questão de fazer isso mesmo, de incomodar o espectador pelo subentendido, mas sempre frontal, e que toca fundo em realidades para as quais não queremos olhar. Na idade adulta reflectem-se traços da dita “má educação”, aqui tudo é mais explícito, mais duro, da forma que Almodóvar nos habituou a mostrar o amor, sobretudo entre os homens.
Tal como em “Hable con ella”, somos confrontados com uma teia sensorial forte, que nos toca, nos emociona, nos leva a crer cegamente no que vemos. Até que por fim, levamos um seco e forte “murro” no estômago, que nos faz duvidar, nos faz sentir quase contra natura, relativamente ao certo e errado, e nisto Almodóvar é um mestre.
A cumplicidade entre realizador e interpretes é latente. Os actores estão soberbos, com destaque para Gael Garcia Bernal, notável! Quer como Angel, quer como Zahara, é evidente o trabalho de Gael em prol da obra de Almodóvar, numa tremenda entrega aos seus três personagens (com perfeito sotaque castelhano, por parte do mexicano). Fele Martinez interpreta Enrique Goded, um realizador de cinema consagrado numa crise de inspiração e que recordará duramente a sua infância ao adaptar “La visita”, uma interpretação séria e sóbria. O toque de humor no filme chega pela mão de Javier Camara, como Paquito, um divertido travesti amigo de Zahara.
Destaque ainda para a poderosa banda sonora, mais uma vez com assinatura Alberto Iglesias. Visualmente belíssimo, “La Mala Educación” é uma aposta pessoal do realizador, e que alguns já chamam a obra prima de Almodóvar, talvez seja simplesmente mais uma. Mas apetece perguntar “E agora Almodóvar?”. Simplesmente Imperdível 10/10 Carla Calheiros