“Life is a Miracle” por Carlos Natálio e Carla Calheiros

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

O que pode ser melhor para uma vila do que uma ferrovia pitoresca para atrair turistas? O que pode ser pior para o turismo do que a guerra? Luka constrói a ferrovia e fecha os seus olhos à guerra. A esposa de Luka foge com um músico e seu filho é chamado para o exército. A vida de Luka é uma zona de guerra. É então que encontra Sabaha.

Elenco

Slavko Stimac, Natasa Solak, Vesna Trivalic

Realizado por Emir Kusturica

Critica

“Velocidade ou sentimento?”. Esta é a formula que ilustra a discussão de Luka (Slavko Stimac), o protagonista de “Zivot Je Cudo”, o mais recente filme de Kusturica, e o seu filho Milos. E se a geração mais velha crê que tudo se desvanece e só o sentimento permanece como centro das decisões, os mais jovens dão maior importância à velocidade e dinâmica. Dicotomia que se aplica à forma com Milos, jogador de futebol deve encarar a sua profissão mas sobretudo indica a forma deste viver a vida. E serve ainda um certo propósito da leitura desta obra, que surge quase seis anos depois do sucesso comercial de “Black Cat, White Cat”. Esta história da amor passada na Sérvia antes e durante a guerra da Bósnia, centra-se em Luka, um homem de meia idade cujas principais preocupações são a carreira futubolística do filho Milos, que espera ser convidado a jogar no Partizan de Belgrado, e também apoiar Jadranka (Vesna Trivalik), a sua desiquilibrada mulher, a ultrapassar o facto da sua fama como cantora lírica se ter “evaporado”. É nesta micro realidade que esta família vive sem se preocupar com a corrupção que grassa na cidade e a eminência da guerra. Quando esta surge, o filho é chamado a combater e a mulher foge com um músico húngaro. É no desespero de rever o filho que Luka se acha guardião de uma prisioneira de guerra bósnia, a belíssima Sabaha (Natasa Solak). Como o amor não conhece raças nem fronteiras estes apaixonam-se num clima de intensificação dos conflitos.

Para esta nova obra, o realizador bósnio terá pensado numa fusão entre estes dois universos que têm caracterizado a sua filmografia. Primeiro, o da agitação, revestida de comicidade, onde as personagens bizarras se sucedem e saltam, disparam tiros para o ar, caiem, onde a violência está presente, onde tudo se parte, tudo é sujo e estranho. Mas sempre de forma anódina, próximo da caricatura. Um bom exemplo disso é a sequência em que os pais de Milos vão ao estádio ver o seu filho jogar e tudo descamba de forma inacreditável. Mas se em “Black Cat, White Cat” não podíamos deixar de rir a bandeiras despregadas com situações semelhantes, aqui não fazemos mais do que sorrir pois a ideia é conhecida e o exagero por vezes evidente.
Do outro lado, o sentimento. A separação de uma família sui generis mas unida à sua maneira, devido à guerra. E também uma improvável história de amor entre os dois lados em conflito, entre o carceireiro e a sua prisioneira. Um amor impossível a invocar “Romeu e Julieta “ de Shakespeare. Desta breve descrição, a sensação é a de que estamos perante uma obra equilibrada e completa. “Velocidade com sentimento”. Infelizmente isso só em parte é verdade. A fusão destas duas realidades envereda pela solução muitas vezes mais simples. Primeiro uma, depois outra, resultando em duas mini obras que, se juntas, formam um todo interessante, quando lidas separadamente não se auto-sustentam a nível narrativo. No entanto, permanecem pontos altos nesta obra de Kusturica. A banda sonora é, claro está, um deles. Outro continua a ser a galeria de personagens bizarros que parece não ter fim quando revêmos a filmografa de Kusturika. Neste existem para todos os gostos. A cantora lírica com desiquilíbrios mentais e sobretudo físicos, o presidente da Câmara de apetite voraz, o amante com queda para o boxe, a burra cujo desgosto de amor faz com que espere indeterminadamente na linha de comboio para que uma locomotiva acabe com a sua vida. Esse animal, sofrendo um desgosto de amor vai ser o símbolo do desespero que se abate sobre algumas das personagens mas também ilustração da persevarança e da não desistência perente as dificuldades. A fazer lembrar, no contexto do dualismo entre as personagens humanas e o burro, o fabuloso “Au Hasard Balthasar”, de Robert Bresson.
Ao contrário de obras mais sérias onde a política era o centro das acções das personagens e a mensagem era clara, aqui a guerra da Bósnia é background. Esta, está longe da acção, as explosões e tiros acontecem lá fora saltando para dentro apenas um pedacinhos de telhado deitados abaixo ou sob a forma de aproximar o recém casal ante o olhar atento do gato e do cão de Luka. O que mexe com as personagens é o amor, o adultério ou a vontade de triunfar profissionalmente. A guerra e a luta contra a corrupção são menores e circunstanciais. As adversidades são sempre suportáveis mesmo no limite e embora tudo se destrua e caia, a integridade do seu humano sai intocada, num optimismo ideológico desesperado que muitos criticam e mais ainda aplaudem. No final, tudo se conjuga, numa inverosimilhança saudável e incongruente. Mas quem se importa? Porque afinal, “A Vida é um Milagre”. 8/10 Carlos Natálio

Critica

A carreira de Emir Kusturica foi indubitavelmente marcada pela história da Jugoslávia e pela Guerra dos Balcãs. Após ter contado o nascimento e queda do seu país, em “Underground”, volta num registo diferente, mas dentro da mesma temática com “Life is a miracle”. Numa pequena vila fronteiriça entre a Bósnia-Herzegovina e a Sérvia, uma peculiar família vai tentando levar a vida, sem preocupação pela guerra iminente. Luka (Slavko Stimac), o pai, vai sonhando com comboios em miniatura, e com a conclusão da obra que ligará novamente Sérvia e Bósnia, via carril. A mãe Jadranka (Vesna Trivalic) uma cantora lírica afastada da ribalta, debate-se com problemas psíquicos. Milos (Vuk Kostic), o filho, vai dividindo o seu tempo entre o futebol, o sonho de ingressar no Partizan de Belgrado e a tentativa de dar algum equilíbrio à sua família disfuncional. Mas o drama está prestes a chegar, Milos é mobilizado no mesmo dia em que o Partizan de Belgrado também o chama, mas na Jugoslávia durante a década de 90, nenhuma carreira se sobrepunha ao chamamento da defesa da pátria. Jadranka também faz as malas e desaparece com um músico húngaro deixando o infeliz (ou será feliz?) Luka, sozinho. Mas o pior ainda está para vir, Milos é feito prisioneiro, e Luka vê-se na necessidade de tomar ele também uma refém muçulmana sérvia, Sabaha (Natasa Solak) que lhe servirá de moeda de troca pela liberdade do filho. Mas Luka e Sabaha apaixonam-se e a partir daqui tudo pode acontecer.

Perante esta premissa podemos pensar que “Life is a miracle” é um filme de guerra, mas longe disso. Aqui, a guerra é um mero acessório que se impôs e que muda por completo o quotidiano de um pequeno grupo de personagens peculiares, entre os quais se destaca uma burra com um desgosto de amor, que acaba por se tornar num verdadeiro símbolo de esperança.
Uma coisa é certa, muitos poucos conseguirão “tratar” a guerra como Kusturica. Mais do que o lado dramático da guerra, Emir consegue transformar um conflito (invisível mas omnipresente) numa trágico-comedia, entre o hilariante, e o drama intenso, mas sempre carregado de ironia. Nada disto é à toa, afinal esta foi a sua guerra.
Emir Kusturica é um realizador que corre riscos e sabe superá-los. Mesmo assim, parece que desta vez, talvez embalado pelo sucesso de “Black Cat, White Cat”, Kusturica se tenha voltado mais para o gosto público, do que em obras anteriores. Para além disso, falta aqui um personagem plenamente marcante, que nos arrebate, como fez Dadan e o seu famoso “PitBull Terrier” em “Black Cat, White Cat”.
Tirando isto, esta celebração de vida é perfeita, e encanta visualmente e não só, pois é complementada por uma excepcional banda sonora. Desde carros a andar sobre carril, a ursos “fugidos da Croácia”, a holligans, sem esquecer a No Smoking Orchestra, está lá de tudo um pouco para deleite do espectador. 9/10 Carla Calheiros

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