Montevideu, Uruguai. Jacobo, um homem de sessenta anos, vive sozinho desde a morte da sua mãe de que tomou conta até ao seu último dia de vida. A única coisa que tem na vida é uma fábrica de meias decadente que está prestes a fechar. Marta, de 48 anos, o braço direito de Jacobo trabalhou para ele durante vinte anos. É a empregada mais experiente e, além das outras funções que assume, também cuida de Jacobo. Nenhum deles pode viver um sem o outro. No entanto, o relacionamento deles, no dia a dia, parece frio, até que chega o irmão de Jacobo.
Elenco
Andrés Pazos (Jacobo Köller), Mirella Pascual (Marta Acuna), Jorge Bolani (Herman Köller), Ana Katz (Graciela), Daniel Hendler (Martin)
Realizado por Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
Critica
A maioria dos seres humanos apenas dá valor a muitas coisas quando está em vias de perdê-las. Se isso é um axioma geral da nossa ligação com o que nos rodeia também é verdade que a alteração da nossa relação-tipo com certas pessoas, pode produzir resultados surpreendentes. Estas duas constatações estão no centro da segunda longa metragem da dupla de realizadores uruguaios, Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll. “Whisky” é uma comédia romântica em tons muito esbatidos, ao qual foi retirada a paixão (pelo menos a convencionalmente definida como tal) e adicionada a cumplicidade e se abdicou da vivacidade das personagens em lugar do seu carácter solitário.
Jacobo é um homem perto dos 60 anos que cuidou da mãe até à sua morte e que dirige uma pequena fábrica de meias, mantendo assim vivo o negócio da família. Marta é uma mulher com idade semelhante que se tornou ao logo dos anos uma fiel empregada, braço direito de Jacobo. A vida corre numa rotina mais ou menos desinteressante até ao dia em que Jacobo, por ocasião da construção da lápide da mãe, chama o seu irmão, que não tinha assistido ao funeral desta e que vive no Brasil, para vir ao Uruguai. Para iludir a sua solidão aos olhos do irmão, mas também aos seus, pede a Marta que durante uns dias vá viver para sua casa fazendo-se passar por sua mulher. Marta prestável aceita.
O que parecia ser um espaço garantido, o da convivência entre Marta e Jacobo, acaba por ser posto em causa pela chegada do irmão Herman. Ao contrário de Jacobo, Herman, ao julgar Marta sua cunhada, trata-a com maior afabilidade. Esta reage pois sempre foi tratada com uma certa frieza pelo único “homem da sua vida”, Jacobo. E este parte para um ciúme muito dissimulado.
Dramaticamente muito sólida esta pequena fábula do quotidiano prende-se a solidões que se cruzam e que se afastam num ambiente soturno. Como apresentado no catálogo do festival Indie Lisboa, no qual o filme integra a secção competitiva, trata-se de uma comédia a 10 à hora. Um humor próximo do universo do finlandês Kaurismaki, onde impera o tom sério e fragmentado.Uma boa ilustração deste humor de cenho carregado é a forma como a dupla uruguaia dá a conhecer o temperamento caprichoso e sobretudo muito solteiro de Jacobo. Quando mostra a casa a Marta, apaga-lhe as luzes das divisões antes dela sair das mesmas ou quando o carro se avaria é ela que o empurra.
Se exteriormente a lentidão das sequências e das acções das personagens é visível, isso é compensado com um turbilhão de sentimentos interno, suobra muito simétrica no qual os planos do quotidiano de início de cada dia de trabalho na fábrica de Jacobo, vão progredindo no início com ligeiras divergências quanto ao ponto de vista (para a ideia de repetição) e têm o seu desfecho, que tem tanto de belo quanto de ilidido, no final do filme. Jacobo e Marta sobretudo, agem com um sentido de normalidade e decoro ditado pelo avançar da idade ainda que sintam intensamente e finalmente nos planos finais da obra o espectador, sabe-o. E quando o faz, apercebe-se da comovência arrasadora desta tragicomédia.
Resta apenas acrescentar que “Whisky” foi a obra premiada este ano em Cannes com o galardão “Un Regard Original” e o prémio FIPRESCI do Júri… 9/10 Carlos Natálio

