“The Fog of War” por Nuno Centeio

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

“The Fog of War” centra-se na entrevista a um homem que foi “diabolizado” durante décadas. Robert McNamara foi secretário de estado da defesa nas presidências de Kennedy e Johnson, e é apontado por muitos como o grande responsável pelo maior desastre bélico da história dos Estados Unidos: o Vietname (até ver).

Realizado por Errol Morris

Critica

Se me perguntarem qual é o melhor realizador vivo de documentários, não tenham dúvidas. A minha resposta imediata será Errol Morris. Posicionado politicamente à esquerda, este cineasta é, no entanto, diametralmente oposto a Michael Moore. Se este especula, entra em divagações demagogas, manipula e reage com belicismos ideológicos para defender a sua posição fortemente parcial, Morris é a antítese. O seu cinema é austero, simples, trabalhado e manipulado de uma forma subtil e que leva o espectador a pensar. Ou seja, enquanto Michael Moore se dispõe a que muitos torçam o nariz ao seu estatuto de “documentarista”, Morris é quase um pleonasmo da definição.

Em “The Fog of War”, tal como nos seus trabalhos anteriores, o realizador é um personagem invisível, cuja voz ouvimos aqui e ali para adicionar uma pergunta ao entrevistado, ou um mero comentário em adenda. Não há pregação de ideias pré-concebidas. Temos, isso sim, um mestre na escolha de material de arquivo e reconstituição de cenas, que sabe como ninguém puxar pelo essencial de quilómetros de fita – note-se os excertos das conversas telefónicas extraídas dos arquivos estatais americanos, só recentemente abertas ao público. “The Fog of War” centra-se na entrevista a um homem que foi “diabolizado” durante décadas. Robert McNamara foi secretário de estado da defesa nas presidências de Kennedy e Johnson, e é apontado por muitos como o grande responsável pelo maior desastre bélico da história dos Estados Unidos: o Vietname (até ver). Morris dividiu o filme em onze lições sobre guerra, nas quais somos apresentados a um idoso de 85 anos, perfeitamente lúcido, que ao longo de todo o filme mostra um pouco da sua efectiva participação em conflitos tão diversos como a Segunda Guerra Mundial (onde trabalhou no então recém-criado departamento estatístico), a crise dos mísseis de Cuba, ou as investidas ao Vietname do Norte.
Importa saber que, quer se queira quer não, este filme é como que uma catarse de McNamara para com o público americano. Depois de ouvirmos o “falcão da guerra” dos anos 60 dizer coisas como “não há período para cometer erros num conflito nuclear. Se cometermos o primeiro, haverá nações que serão destruídas”, então sabemos que estamos perante um homem que tenta a todo o custo limpar a sua imagem da história americana desse período. Mas como McNamara aproveitou o filme para deixar um testemunho benigno e em certos aspectos anti-belicista, também Morris mexe com o seu entrevistado o suficiente para introduzir questões fulcrais sobre a guerra: a frieza dos números quando se tomam decisões de comando (há uma analogia impressionante com um plano em que são bombardeados números, ao invés de bombas); a problemática do que é ou não um crime de guerra; a alegada legitimidade dos Estados Unidos enquanto potência militar na resolução de “conflitos” ou “interesses estratégicos” (com McNamara em evidente crise de “mea culpa” na decisão política de intervir no Vietnam); até que ponto esses “interesses” serão mesmo de carácter ideológico, ou seja, em prol de uma suposta “liberdade”.
McNamara relata alguns episódios que arrepiam. Começando no quão perto estivemos de ser vaporizados pela bomba atómica durante a crise dos misseis cubanos, passando pelo episódio ainda hoje obscuro do início da investida americana no Vietnam (um barco patrulheiro teria, alegadamente, sido atacado por forças vietnamitas, algo que mais tarde se viria a revelar falso), até aos dias finais da sua posição de secretário da defesa, quando um homem (Norman Morrison) se imolou em frente ao seu gabinete em Washington como protesto contra a guerra. “The Fog of War” é, para todos os efeitos, um valiosíssimo documento sobre a guerra, invocando a memória do passado para melhor extrapolar (sem especular) o que estamos a fazer no presente. E para que entendam esta ideia, termino com uma impressionante ilustração: um excerto do discurso do presidente americano Lyndon Johnson, aquando do início da guerra no Vietname. Comparem com o discurso do actual “líder do mundo livre”: “Agora a América ganha as guerras em que se compromete. Não tenham quaisquer dúvidas. E declarámos guerra à tirania e à agressão. Se esta pequena nação [o Vietname] vai pelo cano abaixo e não consegue manter a independência, perguntem-se sobre o que ocorrerá a todas as outras pequenas nações.”
Para os interessados, o site oficial de Errol Morris contém uma transcrição de todo o documentário. Imperdível 10/10 Nuno Centeio

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